Todo Brasileiro Precisa Conhecer Brasília

Devo começar este texto com dois alertas:

1 – Caro leitor não-paulista, lembre-se que nasci e fui criada em São Paulo, o que significa que sou uma pessoa tendenciosa, ainda que inconscientemente, e graças ao estilo de vida que se leva em uma cidade como Guarulhos, que é só uma extensão da cidade de São Paulo, really, a maioria de nós, paulistas, paulistanos, guarulhenses e afins, nunca sentiu muita necessidade de explorar os demais estados brasileiros (a não ser, é claro, os pontos turísticos ‘da moda’, como um dia foi Porto Seguro, como hoje em dia é Trancoso – ou Jericoacoara, de acordo com Carolina que me corrigiu, e essa coisa toda). 

2 – Caro leitor paulista: quanto à declaração anterior – há exceções, e eu espero de todo coração que você seja uma delas.

Ressalvas declaradas e entendidas, vamos ao texto.

Como descrever Brasília? Eu diria que é quase impossível descrever Brasília com uma só palavra. Brasília não é como outras cidades, não é como nenhuma outra cidade que eu conheci. Consigo encontrar uma única palavra para descrever muitos dos lugares que visitei, e estas palavras surgem de imediato só de pensar no cartão portal de cada uma delas. Quer ver só? São Paulo – caótica. Guarulhos – provinciana. Rio de Janeiro – contrastante. Viena – cultural. Chicago – sofisticada. Los Angeles – hipster. Santiago – compacta. Las Vegas – descartável. Miami – exibida. É tão fácil descrever estes lugares, tão óbvios. Menos Brasília. Brasília não tem absolutamente nada de óbvia. 

Em 2004 quando entrei na faculdade de Arquitetura falamos incansavelmente sobre Brasília, graças ao gênio Niemeyer, que no finalzinho da década de 50 juntou todos os seus croquis, esquadros, compassos, transferidores e escalímetros, colocou embaixo do braço e construiu a única cidade planejada do nosso país. Vista de cima, ou através da maquete, como na foto abaixo, fica evidente que a composição da cidade é no formato de um avião. Por isso, e agora passei a entender muito mais as letras do meu amado Renato Russo, existem áreas chamadas Asa Norte e Asa Sul – as asas do avião, formato da cidade. (A propósito, clichê que sou, tive que escutar Legião o tempo todo que pude enquanto estive lá. Todas as letras tomaram um sentido muito único, muito real. É muito bom ser clichê. Gisele – clichê. Ainda bem que não sou cidade.)

Eu tive uma única janela de tempo entre as minhas reuniões onde pude, num período curto de tempo, passear pela cidade. Tive muita, mas muita sorte, porque o taxista que me atendeu, Sr. Raimundo, é um mineiro que vive na nossa capital há mais de 40 anos. Ele conhecia Brasília como a palma da própria mão. Sr. Raimundo me levou para conhecer praticamente todos os lugares imperdíveis da cidade, mas não foi apenas isso – ele parou local por local para que eu pudesse conhecer tudo o máximo possível, entrou junto comigo em tudo o que eu queria ver, e ainda se prontificou a tirar fotos minhas com as paisagens! Sr. Raimundo, não há palavra suficientes para agradecê-lo pela sua enorme gentileza e disposição.

Nossa primeira parada foi no Santuário Dom Bosco, uma igreja católica criada por Lúcio Costa em homenagem ao padroeiro da cidade. Eu não sou católica, mas sou apaixonada por igrejas e templos, e mesmo com todas as igrejas que eu já visitei até hoje, na minha opinião nenhuma conseguiu superar a beleza ímpar e a atmosfera de paz desse lugar. Deus permita que eu volte com mais tempo, porque quero realmente me sentar e contemplá-la como ela merece.

Passamos por todos os prédios das nossas instituições, como o prédio da Caixa Econômica Federal, o prédio da FUNAI, a Biblioteca e o Museu Nacional, os prédios de todos os Ministérios (isso é muito interessante, olhando da rodovia parece até uma biblioteca onde cada prédio dos Ministérios é uma prateleira separada por gênero – Trabalho, Fazenda, Cultura, Educação, Saúde, etc).

Sr. Raimundo me levou também para conhecer a Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, essa sim de Oscar Niemeyer. Não há palavras para sintetizar a beleza desta igreja.

Chegamos, então até a Praça dos Três Poderes. E foi aí que eu senti algo que, mesmo com toda a minha facilidade de dissertação, serei incapaz de descrever. Estive frente à frente com a Gisele brasileira, a Gisele 100% brasileira, sem interferências de etnias ou da genética, eu encontrei a Gisele que nasceu em solo brasileiro. Parece loucura. Talvez seja, mesmo. Principalmente quando não se vive mais no Brasil. Estar na Praça dos Três Poderes, enxergar com meus próprios olhos o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, neste momento tão crítico em que vive a nossa nação, a minha nação, o meu povo, significou tanto na minha vida que eu não consegui conter uma emoção que eu, com toda honestidade, não imaginava carregar dentro de mim.

Eu me senti tão profundamente grata por ter nascido no Brasil. Me senti orgulhosa, porque apesar de todas as dificuldades, apesar de todas as péssimas escolhas relacionadas aos nossos governantes, apesar de tanta injustiça, de tantos problemas, somos uma nação forte, resistente, corajosa! Talvez todas as minhas palavras soem como um grande devaneio, mas não há maior verdade na vida do que esta: só passamos a enxergar um cenário todo e realmente compreendê-lo quando o observamos à distância. E eu venho observando meu país na última década, e percebo que, ainda que pareça impossível, ainda que não se encontre alternativas permanentes de mudança e melhoria, ainda assim há esperança. 

Eu não sei como, não sei quando, mas tenho certeza de que um dia conseguiremos superar tanta opressão e desigualdade. Brasília, por mais irônico que seja, me ensinou exatamente isso. Sabe quantas pessoas de bem eu encontrei nesta viagem? Sabe quantas gentilezas me foram prestadas? Sabe quantas demonstrações de honestidade, trabalho árduo, empreendedorismo e sucesso me foram ofertadas? Eu não saberia contar. Foram muitas.

Fui ao Palácio da Alvorada, fiquei admirada com as emas ciscando como galinhas e com a guarda do nosso Exército que protege o local. 

Acho que no fundo, Brasília pode ser descrita como o Sr. Raimundo. Tanto potencial, tanta engenhosidade, tantas histórias, tanto trabalho. Brasília é muito mais do que os políticos que alí vivem. Brasília é muito mais do que um pedaço de solo e uma maquete. Brasília é o espelho do nosso povo. 

É impossível falar tantas coisas sobre uma cidade inteira, ainda mais sendo a capital de uma nação, em um único post. Como fiquei um tempo muito curto por lá e por ter ído a trabalho, infelizmente não posso comentar muita coisa sobre a parte do entretenimento, restaurantes, shoppings, etc. Também preciso voltar para fazer o passeio do Itamaraty e do Instituto JK, que já sei que são imperdíveis. Volterei, Deus permita, muitas vezes para a minha Brasília (espero que meus queridos leitores donos verdadeiros desta terra não se incomodem e me perdoem pela linguagem possessiva, mas eu realmente acredito que todos nós, brasileiros, temos o direito e o dever de tratar Brasília como o nosso lar – porque no fundo, na estrutura, nas leis, nas decisões e nas consequências, ela realmente é).

Minha maior tristeza foi ter esquecido meu ímã de geladeira de Brasília. Não me perdoarei por isso! Mas quando voltar, comprarei dois.

Brasília, agradeço imensamente por ter despertado minha consciência cívica, minha real identidade, e por ter me recebido da maneira como me recebeu. A você, meus eternos respeito e admiração.

Quem quiser os serviços de táxi do Sr. Raimundo, que recomendo inequivocamente, o número é +61-99982-7460.

Pies Descalzos, Sueños Blancos

Já nem sei há quanto tempo sonho em aprender a tocar violão. A verdade, acho, é que este era um sonho enrustido, que existiu apenas na minha negação – a questão era sempre andar na contramão do pai e da mãe, fazer (ou tentar fazer) exatamente o oposto do que eles esperavam ou que gostariam que a gente fizesse. “Não gosto de Guns’n Roses” foi a primeira alegação estúpida da minha adolescência, porque eu – por algum motivo – achava que meu pai gostava de Guns’n Roses. Pasmem: meu pai nunca ligou a mínima para Guns’n Roses. Ele, na verdade, tem um verdadeiro bom gosto musical, que eu acredito ter herdado completamente, e quem sabe até não usou alguma frase como “Guns é legal” em algum momento da minha iniciação musical, sabendo dos efeitos que esta frase causaria na minha mente, evitando assim o aborrecimento de ter Axl gritando pelos alto-falantes da casa “OOOOooOOOooOOOooo Sweet Child’o Miiiiine!”. Esperto, meu pai.

No fundo, no fundo, eu queria tocar guitarra. Mas não tive coragem de proferir a negativa em voz alta (“Não quero tocar guitarra”) – no caso, declarei aos 15 anos “Quero ser baixista”. Meu pai levantou a sobrancelha esquerda (genética, eu só consigo levantar a sobrancelha esquerda, mas há chances que tenha sido a direita, meu pai é muito mais habilidoso com suas sobrancelhas do que eu), me olhou por cima dos óculos e disse: “Certo. Vou arrumar um baixo pra você. Emprestado. Se você der conta, vemos de comprar um.” O baixo emprestado morou pouco mais de 12 meses no meu quarto. Eu não dei conta.

O tempo passou e eu decidi que “música não é pra mim”. Minha mãe, musicista formada pelo conservatório e pela universidade, achou que era importante que eu aprendesse algum instrumento (devidamente feminino). Como não levo o menor jeito para a flauta transversal (seu instrumento, e ela toca incrivelmente bem), me colocou nas aulas de teclado. Durei por cinco anos, e foi legal. Eu até cheguei a gostar de tocar, em algum momento, e as professoras eram quase minhas terapeutas. Foi uma época divertida, importante pra mim. Mas, passou. E “música não é pra mim” seguiu sendo meu lema.

O lema durou por mais de uma década. E para uma geminiana enjoada como eu, realmente não fazia sentido nenhum não esquecer a idéia do violão. De tempos em tempos eu cogitava “vou comprar um e dane-se”, mas desistia. Desisti algumas centenas de vezes, mas não o suficiente para esquecer.

E foi então que há duas semanas, de uma maneira totalmente aleatória, lá estava eu, Gisele, beirando os 31 anos de idade, usando um colete rosa-choque tipo caneta marca-texto, dentro da Guitar Center, em busca de um violão. “What the hell, Gisele?” – pensei umas três vezes. Paguei o maior mico do mundo com o vendedor, um moleque que aposto ser menor de idade, com os cabelos maiores que os meus, segurando o riso, tentando me mostrar as diferenças entre um instrumento e o outro (não o culpo, acho que os olhos dele estavam ardendo um pouco por causa do meu colete). 

Pensando em poupá-lo da dor nos olhos e nos ouvidos, pedi com todas as letras que ele me deixasse sozinha para escolher o pobre violão. Eu não sou uma pessoa que tem problemas em comprar nada (vide o colete rosa-choque), mas fiquei perdida em meio a tantas opções (não tinha nenhum violão rosa-choque, infelizmente). Brincadeiras a parte, escolhi. Há tempos não me sentia tão feliz.

Desde então venho praticando, primeiro sozinha, e por fim com a ajuda do meu pai que – como ele mesmo já sabe – é um ótimo professor. Ele me ensinou a tocar Amazing Grace (um hino evangélico), mas eu reaproveitei os mesmos acordes para tocar uma música da Shakira (vestígios da rebeldia adolescente?). Ontem fiquei muito tempo treinando a mesma música, rindo sozinha com meus erros e acertos. 

Não há, de fato, uma moral muito enigmática nessa história. A moral é muito óbvia. Tão óbvia, que não preciso descrevê-la. Essas conversas que ando tendo com meu eu adolescente são as mais proveitosas. Um pouco inúteis, acho, mas resultam sempre em bons sentimentos. “Evoluí” – digo à Gisele adolescente. 

Ela ri.

30 Dias Para os 31


Vamos tentar fazer um cowntdown até o dia 11 de Junho? Vamooooos!
Não, não prometo que vou conseguir postar todos os dias. Mas queria pelo menos tentar. É um jeito de tentar aproveitar intensamente cada um destes meus últimos dias com trinta anos de idade. É engraçado porque esse ano um monte de gente que eu conheço faz trinta – é engraçado pensar “been there, done that”, sabe?

Agora eu definitivamente me sinto muito mais adulta e dona do meu nariz do que quando estava na casa dos vinte. Não dá pra explicar muito bem como isso acontece, simplesmente você acorda um dia, se olha no espelho e pensa: trinta. Na figura refletida, nada mudou – nem a pele, nem o cabelo, nem o corpo, nem os hábitos. Mas por dentro, é como pressionar um botãozinho que diz “é isso aí, welcome to real life!” – e de repente tudo vem à tona.

Você pensa no mundo de outra forma, pensa na sua própria existência de outra forma. Os ‘grandes problemas’ que você achava que tinha resumem-se agora a um belo e redondo NADA. O que não importava, agora importa. O que importava, você nem lembra mais.

Veja bem, eu abandonei coisas que amava, como meus videos no YouTube (e não quer dizer que seja para sempre, mas se for, tudo bem), e passei a fazer questão de me preocupar com a minha saúde. Na verdade, é mais profundo que isso, mas acho que só vou conseguir explicar melhor depois dos quarenta (ou cinquenta… ou sessenta…).

Desejo de hoje: continuar focada no que importa de verdade. 

Para cada dia do countdown, um desejo. O de hoje é só esse.

G.

Sobre as DRs

Todos esses dias que fiquei meio sumida, sumi por motivos bons, ao contrário do que alguns possam imaginar. E a verdade é que nem os culpo por pensar o pior, já que minhas ausências são sempre fruto de algum trauma, alguma crise, alguma reclusa emocional pós-overdose de mundo real, e essas coisas todas. Sou uma sofredora nata (corinthiana também, com TH), mas sempre dou um jeito de usar a dor a meu favor.

Bem, não foi por dor nenhuma que desapareci, mas é de um assunto no mínimo desconfortável – para não dizer “doloroso” – DÊ-ERRES.

D.R. – que significa (caso alguém ainda não saiba) Discussão de Relacionamento.

Outro dia estava conversando com um amigo e nós brigamos. Não foi bem uma briga, para ser justa, mas foi um desentendimento de ideias, opiniões, intenções e ações (profundo, não? Mas pode chamar isso tudo, popularmente, de briga mesmo haha). No final, depois de algumas horas de vai e vem de cabo-de-guerra verbal, nos entendemos. Foi quando eu disse as palavras mágicas: “Até que pra uma DR nos saímos bem”. Para quê eu disso aquilo?

Começamos outra discussão, imediatamente, a respeito do termo DR. Não é a coisa mais estúpida do mundo? Sim, claro que é! Porque as pessoas acham que essa sigla cabe ÚNICA e EXCLUSIVAMENTE para brigas – desentendimentos, discordâncias, lavação de roupa suja, colocar tudo em pratos limpos, cortar todos os Ts e colocar todos os pingos nos Is – amorosas (conjugais, passionais, de CASAL).

Como diria Compadre Washington Beto Jamaica*: AGORA PARE!

Não dá pra viver assim. Não dá pra rotular tudo na vida. Não dá pra olhar ao redor com um único par de olhos, uma única maneira de pensar, um único jeito de ver as coisas. É por isso que o mundo está como está: porque as pessoas não tem DRs umas com as outras! Só os casais. E mesmo assim, as evitam.

Num outro episódio, duas amigas estavam chateadas uma com a outra e – por evitar a DR – a coisa começou a crescer, cresceu mais do que devia até que – BOOM! Uma delas explodiu. Conversando com ambas, percebi que tudo aquilo não passava da forma mais puríssima de má comunicação.

Má comunicação. Quantas vezes você evitou uma DR com um amigo, com seus pais, com seus irmãos, com as pessoas que REALMENTE importam na sua vida, e explodiu? Acontece com todo mundo.

Mas poderia muito bem ser evitado, se a gente perdesse o medo de falar. Conversar, se abrir, fazer um cabo-de-guerra verbal, e daí se não concordamos? Podemos concordar em discordar. E aprender a conviver com as nossas diferenças, e viver em paz. Ou, mais provável ainda, a conversa franca pode, sim, resultar em um acordo agradável entre ambas as partes.

DR – Discussão de Relacionamento. Relacionamento significa todo tipo de interação com quem realmente amamos: amor fraternal, amor materno-paterno, amor conjugal, todos contam. Nenhum é mais ou menos importante que o outro (na minha opinião, e não estou falando de prioridades, e sim de amor, que é um sentimento completo e imensurável, portanto não pode ser maior por um e menor por outro, ou você ama ou não ama).

Minha melhor amiga e eu somos o exímio exemplo de adeptas às DRs. Falamos tanto, sobre tantos assuntos, sobre tudo o que incomoda na outra, sobre tudo o que amamos na outra, sobre o que gostaríamos que a outra melhorasse, e o quanto estamos orgulhosas com os progressos que a outra está conseguindo. Depois de alguns escorregões, aprendemos que falar é sempre, e sempre será, a melhor de todas as opções. A gente descobriu que é melhor falar e se arrepender, do que se arrepender de não ter dito nada! Nossas DRs são majestosas – para dizer o mínimo – e algumas vezes nos cansam tanto que precisamos de uma soneca entre a parte I e a parte II. Mas, acredite, é isso que faz a nossa amizade ser o que é, e ela é perfeita (porque perfeição não significa estar de acordo em tudo, e sim continuar amando igual mesmo com todas as diferenças).

Desta forma, deixo aqui meu apelo a todas as pessoas que lerem este querido texto: empenhem-se nas DRs com todas as pessoas da sua vida. Não deixe de dizer o que você pensa ou como se sente, não deixe de se expressar, não deixe de demonstrar o seu amor e até mesmo a sua raiva (quando há amor por trás, e deixe que a pessoa saiba que há amor por trás da raiva), em curtas palavras: não perca a oportunidade de se abrir como um livro para as pessoas que você se importa e confia.

A última coisa que você precisa na sua vida é do arrependimento de NÃO ter tido as DRs que você necessitava ter. Nós não temos como saber quando vai ser a última chance. E DRs, afinal, são discussões como qualquer outra, discutir não significa bater boca, faltar com respeito ou passar por cima dos sentimentos dos outros. Discutir significa falar e escutar, escutar e falar, com o objetivo de resolver qualquer situação que esteja enroscada dentro de você.

Boas DRs!

Gisele (e Carolina).

 

*Carolina me corrigiu – porque não temos medo de falar as coisas. ❤

Sobre a Imaginação 

O mal de quem tem a imaginação fértil é ter a capacidade de auto-sabotagem num nível quase extremo. Quem será que, além de mim, já passou por algo assim? Viver uma história fora da sua própria por 48 horas, ou menos até?Eu queria conseguir sair do meu corpo e assistir às minhas próprias ações nestes momentos, acho que sentiria…. vergonha alheia! E sim, isto é quase uma piada. Seria engraçado se não fosse (quase) trágico!

O bom de quem tem a imaginação fértil é que, quando se dão estas presepadas de auto-sabotagem a gente tem um tipo de “wake up call”, um chamado de volta à realidade, e a frustração daquele pequeno…surto, vira uma (fonte? Bica, bica é melhor) bica de autoconhecimento, uma bica que gera um (lago? Não, lago não. Espelho d’água, espelho d’água é melhor) espelho d’água que vai refletir a imagem do ser que você é, e não do ser que gostaria de ter se tornado.

Eu gostaria tanto, mas tanto de poder escrever abertamente sobre tudo o que eu sinto e penso e vivo, mas não posso. Me restam apenas as minhas grandes amigas, analogia e figura de linguagem, e boa sorte pra quem tentar decifrar qualquer uma delas! Não vai conseguir.

Eu dou meia-volta nessa conversa, de repente me sinto uma menininha de oito anos, olhando pela janela do quarto e pensando, com minhas marias-chiquinhas, como será que é o lado de fora. Não o quintal, mas as ruas, a cidade, os barulhos, os céus, as nuvens e os sóis que eu não vejo.

Continuo sendo muito amiga da minha imaginação. E continuarei fazendo uso da auto-sabotagem, porque pessoas como eu são assim, entende? Não, eu sei. Mas tudo bem. 

O fato é que, seja lá o que for que eu sinta, ou que invente que sinta, fico feliz por sentir. Sentir é estar vivo. Estar vivo é, às vezes, se auto-sabotar assim. De maneiras estupidamente necessárias. 

Isso.

Entre Você e Eu

De volta às Aventuras Escritas! Senti falta de falar com você por aqui.

Vamos tornar nosso diálogo um pouco menos impessoal – vou tentar escrever no estilo one-on-one daqui para frente. Vou evitar o plural, e vou evitar imaginar um público com diversas faces e focar somenda sua. No seu rosto, nos seus sentimentos, e no que eu posso provocar, com as minhas palavras, dentro da sua cabeça. Sim, você.

Há momentos em que eu realmente gostaria de canalizar mais do meu tempo e da minha energia escrevendo aqui, compartilhando cada detalhe do que acontece comigo, catalogando os episódios da minha vida, e dando ênfase às verdadeiras aventuras que acabo vivendo de tempos em tempos. Dar jus ao nome do Blog, entende?

Só que ultimamente, e um pouco inesperadamente, confesso que andei canalizando meu tempo e energia no mundo real. Ando sentindo cada vez mais prazer em me conectar com o mundo e com as pessoas de maneira física, e aos poucos acabei esquecendo da minha rotina digital, que por anos, foi uma parcela muito importante da minha vida como um todo.

Não, não estou me despedindo de você. Acho que estou apenas tentando, pela milésima vez, me explicar. Deve ser algo relacionado ao meu signo (não acredito em signos, mas que eles funcionam, ah…), hora tempestuoso, hora sereno. Eu gosto de ser assim (não que haja outra opção), porque costumo enjoar com a mesma facilidade com que me empolgo com todas as coisas.

De qualquer forma, sim, estive viajando. Conquistei o sonho de conhecer a Áustria, sonho antigo, junto com o Josh, e devo dizer que foram os dias mais encantadores da minha vida. Pela primeira vez, não senti saudades de casa, apenas dos cães. Não queria que aquela viagem tivesse fim. O bom do fim é que ele abre espaço para um novo começo, e já estou pensando no dia em que voltarei àquela terra maravilhosa.

Sigo trabalhando, como sempre, e cuidando da casa, dos caninos e de tudo o mais que me é responsabilidade. Estes dias fora daqui fizeram tão bem à minha cabeça que tenho muitos planos e vontades e metas e idéias novas. No regresso é hora de colocar tudo em prática. Aliás, regresso apenas no sentido literal do regresso ao lar, mas nesta volta para casa só houve progresso. Seria vaidade demais dizer que não lembro da Gisele que era antes desta viagem? Vaidade, talvez, pretensão com certeza, prepotência, nunca.

Já fui chamada de prepotente, e cheguei à conclusão de que este foi um insulto muito injusto. Não sou prepotente, a tirania não pertence ao meu organismo. Mas o fato é que realmente não estou com vontade de escrever a respeito de quem eu sou. Saber que não sou prepotente já é o bastante.

E saber que fui à Viena, e à Salzburgo, e visitei lugares que sonhei, e comi comidas que desejei, e enxi os olhos com as paisagems mais maravilhosas que poderiam existir já parecem o suficiente para que eu durma em paz todas as noites, grata a Deus, grata aos meus esforços, e grata a tudo o que conspirou a favor dessa conquista.

Logo volto para matar mais um pouco a saudade que senti de você. Sim, você.

Meu Passado à Deriva 

Quantos pedaços de um passado formam o que somos hoje? Os meus estão espalhados por aí, entre ruas, casas, corredores, janelas, praias, jardins… Os meus pedaços estão perdidos, mas não no sentido obscuro da palavra, no sentido da liberdade. Meus pedaços fluem além do tempo. Meu passado tem presença, ainda hoje, em corações distribuídos mundo afora (universo afora, ousaria dizer).

Se encontro um pedaço perdido, fico feliz. É como encontrar de volta uma garrafa à deriva, com uma mensagem doce e divertida (ou não) que lancei em alto mar com as minhas próprias mãos. Mensagens que nunca sonhei um dia poder ler novamente, garrafas que jurei que jamais poderia segurar outra vez. Algumas delas voltam. A correnteza as devolve, o vento as sopra, a vida as retorna.

São momentos assim que me fazem pensar que, no conjunto, tudo foi bom – do pretérito perfeito. Até o que não foi bom, foi bom. Porque quando a gente se depara com estes fragmentos livres, de lembranças e vivências e memórias e estórias, percebemos que tudo faz parte de um grande emaranhado de emoções e experiência, pedaços perdidos, os meus quando encontram os seus, se conectam e se interligam, e no final, a formação faz todo sentido, tudo se torna completo.

O problema das felicidades e infelicidades da nossa jornada é que encaramos o caminho com total individualidade. Olhamos para a nossa própria existência com olhos de espectador, como em um filme com começo, meio e fim. Mas não somos espectadores, nem atores, nem diretores. Não há filme. Não há começo, meio e fim. Somos parte de um todo, e tudo o que pensamos, sentimos e fazemos tem ligação direta com tudo e todos à nossa volta.

E depois que a vida acontece, olhamos para trás e percebemos a infinidade de pedaços de passado que fomos capazes de inventar, moldar, pintar, craquelar, estilhaçar, esmagar e soprar, com toda força, de encontro ao universo, foram reais contribuições que fizemos, inconscientemente, na vida e história uns dos outros.

Encontrei alguns pedaços de passado por esses dias, e todos eles me fizeram sorrir. Mesmo os cacos que um dia romperam uma ferida, hoje fazem sorrir. Penso com carinho e recebo com gratidão as garrafas à deriva que encontraram uma maneira de voltar até mim. Porque todas as vezes que uma delas foi abandonada em alto mar, levou consigo uma gota de esperança de que um dia estaríamos reunídas novamente. E agora, começo a entender o porquê: somos parte do todo.