Poesia do Adeus

Fio da vida é um embaraço

Enrosco, contorcido, emaranhado

Ele prende, amarra, une, aperta

Junta, aos montes, almas diversas

Um nó, nós 

Muitos, todos nós

Fio, se novelo 

Cheio e seguro

Firma suas voltas sem medo

Enrola com precisão

Costura histórias, amores

Derrotas

Cria confusão

Fio quando estica

Corta

A pele, os laços, as memórias

Machuca, sangra

Esgota

Fio tenso, se mostra forte

De fato, apenas fraqueza

Arrebenta, no susto

Leva tudo

Sem saber, vira tormenta

A vida é um fio

Fino, solto

Frágil, sutil

E sem aviso, demonstra

Fio 

Que tem fim

Verso Sem Volta


Eu não quero nada de volta, porque nada volta. Muda.

O que foi, por onde passou rasgou, sangrou, amarrotou, fundiu. Luta.

Uniu sentimento e razão, numa nova massa, matéria que não é mais o que um dia foi. Insípida.

O que foi, um dia transparente, no outro tempestade. Inunda.

Se busco o passado, percebo que foi trancado com raiva. Reclusa.

Penso nos dias quentes, nos raios verdes que emitia o olhar. Pulsa.

Lindos raios, hoje mais tortos, menos mornos e sofridos. Culpa. 

Quisera que o tempo fosse bom e piedoso, mas não é. Afunda.

Sinto o talhar da tristeza que lapida o caminho. Bruta.

De semblante apagado a escuridão da lembrança faz soluçar. Oculta.

Como um espelho largo, um lago reflete memórias perdidas. Profundas.

Não quero de volta, a volta não é curva, é linha. Infinita.

Saída cinza, sem raios nem som, nem lagos, nem dom. Consumida.

Se foi, na turva linha a curva deforme que não hesita. Desista.

G.T.G. 05 de Outubro de 2016

Tu

Tudo aberto.

Teu número.

Tomo coragem.

“Ai meu Deus, faço ou não faço? Vai, menina. Toma vergonha. Faz de uma vez. Vai. Disca.”

Tuuuuuuuu….

“Eita… 729..23.. Tá mudo. Tá mudo. Deu zica, vou desligar. AI MEU DEUS, TÁ CHAMANDO!”

Tuuuu… Tuuu…. Tuuu….

“ – Alô?” – Tua voz.

“…”

“ – Alô?! …” (… “Quem é?!” Outra voz ao fundo, a tal intrusa, tão sortuda.)

“…”

“ – Alô? … Não sei, um número esquisito. Olha aqui, que estranho o que aparece… Tá vendo?….” 

Mostra a bina.

“ – Alô?… Alô?!?”

“…”

Tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu.

“Tá certo. Prende a respiração. Vai! AGORA, PRENDE!”

Tua boca, meu coração. Meu coração na boca, disparado. Um todo.

Tu-tu. Tu-tu. Tu-tu. Tu-tu.

“Segura a respiração, conta até 15.”

Um… Dois… Três… Quatro…

Tempo. Aquele filminho flutuando, os olhos fechados, segurando o nariz. Um dia no sítio, um ônibus, um apartamento, um secador de cabelo queimado. Você consertou. Mas eu te deixei.

…Quinze.

“Solta, dá risada, fica nervosa, dá uma tremidinha. Tá, chega.”

Travei. 

Dois mil e seis. 

É tarde.

Dois mil e dezesseis.

Eu com tu, eu sem tu. 

Eu com vinte, eu sem trinta.

Tudo muda. Todo mundo. 

Tudo. Muda.

Até Eu. E tu.

Gisele T. G., 26/7/16 – Poema dedicado à 2006 e tudo o que ele representou. Certas marcas são para sempre. Certos anos também.