Poesia do Adeus

Fio da vida é um embaraço

Enrosco, contorcido, emaranhado

Ele prende, amarra, une, aperta

Junta, aos montes, almas diversas

Um nó, nós 

Muitos, todos nós

Fio, se novelo 

Cheio e seguro

Firma suas voltas sem medo

Enrola com precisão

Costura histórias, amores

Derrotas

Cria confusão

Fio quando estica

Corta

A pele, os laços, as memórias

Machuca, sangra

Esgota

Fio tenso, se mostra forte

De fato, apenas fraqueza

Arrebenta, no susto

Leva tudo

Sem saber, vira tormenta

A vida é um fio

Fino, solto

Frágil, sutil

E sem aviso, demonstra

Fio 

Que tem fim

Todo Brasileiro Precisa Conhecer Brasília

Devo começar este texto com dois alertas:

1 – Caro leitor não-paulista, lembre-se que nasci e fui criada em São Paulo, o que significa que sou uma pessoa tendenciosa, ainda que inconscientemente, e graças ao estilo de vida que se leva em uma cidade como Guarulhos, que é só uma extensão da cidade de São Paulo, really, a maioria de nós, paulistas, paulistanos, guarulhenses e afins, nunca sentiu muita necessidade de explorar os demais estados brasileiros (a não ser, é claro, os pontos turísticos ‘da moda’, como um dia foi Porto Seguro, como hoje em dia é Trancoso – ou Jericoacoara, de acordo com Carolina que me corrigiu, e essa coisa toda). 

2 – Caro leitor paulista: quanto à declaração anterior – há exceções, e eu espero de todo coração que você seja uma delas.

Ressalvas declaradas e entendidas, vamos ao texto.

Como descrever Brasília? Eu diria que é quase impossível descrever Brasília com uma só palavra. Brasília não é como outras cidades, não é como nenhuma outra cidade que eu conheci. Consigo encontrar uma única palavra para descrever muitos dos lugares que visitei, e estas palavras surgem de imediato só de pensar no cartão portal de cada uma delas. Quer ver só? São Paulo – caótica. Guarulhos – provinciana. Rio de Janeiro – contrastante. Viena – cultural. Chicago – sofisticada. Los Angeles – hipster. Santiago – compacta. Las Vegas – descartável. Miami – exibida. É tão fácil descrever estes lugares, tão óbvios. Menos Brasília. Brasília não tem absolutamente nada de óbvia. 

Em 2004 quando entrei na faculdade de Arquitetura falamos incansavelmente sobre Brasília, graças ao gênio Niemeyer, que no finalzinho da década de 50 juntou todos os seus croquis, esquadros, compassos, transferidores e escalímetros, colocou embaixo do braço e construiu a única cidade planejada do nosso país. Vista de cima, ou através da maquete, como na foto abaixo, fica evidente que a composição da cidade é no formato de um avião. Por isso, e agora passei a entender muito mais as letras do meu amado Renato Russo, existem áreas chamadas Asa Norte e Asa Sul – as asas do avião, formato da cidade. (A propósito, clichê que sou, tive que escutar Legião o tempo todo que pude enquanto estive lá. Todas as letras tomaram um sentido muito único, muito real. É muito bom ser clichê. Gisele – clichê. Ainda bem que não sou cidade.)

Eu tive uma única janela de tempo entre as minhas reuniões onde pude, num período curto de tempo, passear pela cidade. Tive muita, mas muita sorte, porque o taxista que me atendeu, Sr. Raimundo, é um mineiro que vive na nossa capital há mais de 40 anos. Ele conhecia Brasília como a palma da própria mão. Sr. Raimundo me levou para conhecer praticamente todos os lugares imperdíveis da cidade, mas não foi apenas isso – ele parou local por local para que eu pudesse conhecer tudo o máximo possível, entrou junto comigo em tudo o que eu queria ver, e ainda se prontificou a tirar fotos minhas com as paisagens! Sr. Raimundo, não há palavra suficientes para agradecê-lo pela sua enorme gentileza e disposição.

Nossa primeira parada foi no Santuário Dom Bosco, uma igreja católica criada por Lúcio Costa em homenagem ao padroeiro da cidade. Eu não sou católica, mas sou apaixonada por igrejas e templos, e mesmo com todas as igrejas que eu já visitei até hoje, na minha opinião nenhuma conseguiu superar a beleza ímpar e a atmosfera de paz desse lugar. Deus permita que eu volte com mais tempo, porque quero realmente me sentar e contemplá-la como ela merece.

Passamos por todos os prédios das nossas instituições, como o prédio da Caixa Econômica Federal, o prédio da FUNAI, a Biblioteca e o Museu Nacional, os prédios de todos os Ministérios (isso é muito interessante, olhando da rodovia parece até uma biblioteca onde cada prédio dos Ministérios é uma prateleira separada por gênero – Trabalho, Fazenda, Cultura, Educação, Saúde, etc).

Sr. Raimundo me levou também para conhecer a Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, essa sim de Oscar Niemeyer. Não há palavras para sintetizar a beleza desta igreja.

Chegamos, então até a Praça dos Três Poderes. E foi aí que eu senti algo que, mesmo com toda a minha facilidade de dissertação, serei incapaz de descrever. Estive frente à frente com a Gisele brasileira, a Gisele 100% brasileira, sem interferências de etnias ou da genética, eu encontrei a Gisele que nasceu em solo brasileiro. Parece loucura. Talvez seja, mesmo. Principalmente quando não se vive mais no Brasil. Estar na Praça dos Três Poderes, enxergar com meus próprios olhos o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, neste momento tão crítico em que vive a nossa nação, a minha nação, o meu povo, significou tanto na minha vida que eu não consegui conter uma emoção que eu, com toda honestidade, não imaginava carregar dentro de mim.

Eu me senti tão profundamente grata por ter nascido no Brasil. Me senti orgulhosa, porque apesar de todas as dificuldades, apesar de todas as péssimas escolhas relacionadas aos nossos governantes, apesar de tanta injustiça, de tantos problemas, somos uma nação forte, resistente, corajosa! Talvez todas as minhas palavras soem como um grande devaneio, mas não há maior verdade na vida do que esta: só passamos a enxergar um cenário todo e realmente compreendê-lo quando o observamos à distância. E eu venho observando meu país na última década, e percebo que, ainda que pareça impossível, ainda que não se encontre alternativas permanentes de mudança e melhoria, ainda assim há esperança. 

Eu não sei como, não sei quando, mas tenho certeza de que um dia conseguiremos superar tanta opressão e desigualdade. Brasília, por mais irônico que seja, me ensinou exatamente isso. Sabe quantas pessoas de bem eu encontrei nesta viagem? Sabe quantas gentilezas me foram prestadas? Sabe quantas demonstrações de honestidade, trabalho árduo, empreendedorismo e sucesso me foram ofertadas? Eu não saberia contar. Foram muitas.

Fui ao Palácio da Alvorada, fiquei admirada com as emas ciscando como galinhas e com a guarda do nosso Exército que protege o local. 

Acho que no fundo, Brasília pode ser descrita como o Sr. Raimundo. Tanto potencial, tanta engenhosidade, tantas histórias, tanto trabalho. Brasília é muito mais do que os políticos que alí vivem. Brasília é muito mais do que um pedaço de solo e uma maquete. Brasília é o espelho do nosso povo. 

É impossível falar tantas coisas sobre uma cidade inteira, ainda mais sendo a capital de uma nação, em um único post. Como fiquei um tempo muito curto por lá e por ter ído a trabalho, infelizmente não posso comentar muita coisa sobre a parte do entretenimento, restaurantes, shoppings, etc. Também preciso voltar para fazer o passeio do Itamaraty e do Instituto JK, que já sei que são imperdíveis. Volterei, Deus permita, muitas vezes para a minha Brasília (espero que meus queridos leitores donos verdadeiros desta terra não se incomodem e me perdoem pela linguagem possessiva, mas eu realmente acredito que todos nós, brasileiros, temos o direito e o dever de tratar Brasília como o nosso lar – porque no fundo, na estrutura, nas leis, nas decisões e nas consequências, ela realmente é).

Minha maior tristeza foi ter esquecido meu ímã de geladeira de Brasília. Não me perdoarei por isso! Mas quando voltar, comprarei dois.

Brasília, agradeço imensamente por ter despertado minha consciência cívica, minha real identidade, e por ter me recebido da maneira como me recebeu. A você, meus eternos respeito e admiração.

Quem quiser os serviços de táxi do Sr. Raimundo, que recomendo inequivocamente, o número é +61-99982-7460.

Riso Solto, Brasil e 31


Mais de um mês sem atualizar meu pobre blog. O que está acontecendo? Gisele, você já foi melhor em administrar suas prioridades!

É que… Sabe como é? As prioridades mudam. De vez em quando, mudam temporariamente, outras vezes simplesmente mudam, sem data de validade. Mudanças sem data de validade.

Mas não, não os deixarei. 

Como sempre, estive fora a trabalho. Eu já disse que amo meu trabalho? Amo mesmo. Deus me abriu essa porta e eu, honestamente, não tinha muita noção de quantas pessoas, lugares e experiências especiais passariam pelo meu caminho através dele.

Então, fui ao Brasil, a trabalho, por duas semanas. No final de semana recheio da viagem, fiz aniversário. Trinta e um anos de vida, meu. É ano pra cacete, mas ainda me sinto igual aos vinte e um, só que mais legal, mais desencanada, mais livre, leve e loira.

Passei meu aniversário no topo do Corcovado, agradecendo ao Pai por todas as bênçãos. Quero mesmo falar especificamente sobre este dia em um post separado, porque há muitas coisas para contar.

Nesta viagem também pude conhecer a capital do nosso país. De verdade, esse assunto também merece um post separado. Brasília é simplesmente inesquecível. Simplesmente incomparável. Vou escrever tudo sobre isso também, prometo. 

Agora que já matamos dois tópicos do título do post, falemos sobre o riso solto – de fato, a parte fundamental deste texto.

Não sei se você acompanha meu blog, muito menos se acompanha há um tempo, mas se é este o seu caso, talvez você se lembre que no ano passado, em Novembro, estive no Brasil e saí de lá com o coração partido em mil pedaços. Não foi fácil, e eu confesso que graças àquele infeliz episódio eu havia perdido a vontade de voltar.

Só que eu sabia que voltaria, eu tinha certeza que não iria demorar pra isso acontecer. Se eu estava preparada psicologicamente para voltar? Não, não estava. Mas sabe aquela história de males que vem pra bem? Então, ela é muito verdade.

Quando soube com certeza que voltaria, reuni forças (que atendem pelos nomes de ‘mãe’, Josh e Carolina) e já era. Já era MESMO. Coloquei tudo em órdem e entrei no avião repetindo mentalmente o ‘mantra’: essa viagem vai ser ótima, essa viagem vai ser ótima, essa viagem vai ser ótima…

Do minuto que eu cheguei até o minuto que eu parti: a viagem foi ótima.

Mesmo com TPMs cruzadas (eita, Carolina!), mesmo com as quase contaminações cruzadas (eita, Carolina!) mesmo tendo seis vôos em quinze dias, mesmo com as chuvas torrenciais paulistas, mesmo com a logística das malas (Pai amado, essa foi f*#$!), mesmo com os piores motoristas cariocas (desculpa gente, foram todos ruins, menos o Átila – sério, preciso fazer um post contando exclusivamente sobre o Átila!), mesmo com TUDO o que poderia ter dado errado, foi tudo TÃO MARAVILHOSO que eu realmente, do fundo do meu coração, e pela primeira vez desde a primeira vez, não queria ir embora.

Eu acho que nunca ri TANTO na minha vida. É sério. 

Não tenho como descrever o quanto me diverti, quantas pessoas incríveis fizeram desta viagem um momento inesquecível. Me reconectei com algumas pessoas tão importantes pra mim (Naty, como foi bom estar com você, você não imagina), rever pessoas que significam tanto na minha história (Karen, você é pra mim o que sempre foi e o que sempre será), fiz novos amigos (Fátima, com ou sem arroz de polvo, você é a melhor pessoa!!! Sônia, você é exatamente o doce de pessoa que eu pensei que você seria!), conheci minhas bebês Laura e Rafaela, filhas dos meus primos que nasceram este ano, e é claro, pude estar com a minha avó que amo tanto, rever meus tios, meus primos, e pessoas que fazem tanta diferença na minha vida.

Não, eu não pude me encontrar com todo mundo que eu queria. Isso nunca é possível, por alguns motivos, em especial pelo fato de que o meu foco nestas viagens é o trabalho, o trabalho é a minha prioridade. Então é muito difícil conseguir conciliar o que eu gostaria com o que eu posso fazer. Mas acho que tudo na vida é assim, não é?

O que eu aprendi com esta viagem? Que não há nada melhor do que dar risada. Não há. Minha tia Marili, a Fátima, o Eric, a Miriam, a Bruna, a Karen… e a Carolina! Não dá pra ficar perto dessas pessoas sem dar risada. Eu ri de passar mal. Sabe o que é isso? Rir de passar mal? De doer as mandíbulas (eita, Carolina!)? De não conseguir dormir porque não consegue parar de pensar nas asneiras todas? Todos os momentos que estive com eles foram assim. 

A vida é engraçada. Ela realmente não é uma constante. Ou é, mas com ondas de altos e baixos que só podem ser enxergadas à distancia, sabe?! Esta viagem foi uma onda alta. 

Agora, é manter a vibe feliz e seguir em frente, porque com toda certeza as próximas ondas virão (só que dessa vez eu já estarei mais preparada).

Até breve, turma.

G.

Dezessete de Maio

Há cerca de 7,5 bilhões de pessoas no planeta Terra. Uma porcentagem considerável delas nasceu no dia 17 de maio de um ano qualquer. Há grandes chances de que, dentro desta fatia, uma outra considerável porcentagem de pessoas sejam pessoas legais (a gente sempre acha que quem faz aniversário no mesmo dia que a gente é porque é legal de verdade). Mas de todas estas centenas de milhares de pessoas que possivelmente nasceram no mesmo dia 17 de maio, apenas uma, e uma somente, me importa, e muito mais do que me importa.

Eu já escrevi neste Blog e em outros veículos textos, mensagens e declarações de amor a esta pessoa. Não é segredo para ninguém, nem para os nossos amigos, muito menos para os nossos pseudo-inimigos, o quanto nos amamos, e o que significamos na vida uma da outra.

A gente não espera que ninguém entenda este amor, mesmo porque, quando se trata de amizade, é um decimal muitíssimo estreito destes 7,5 bilhões de pessoas que de fato entende o que esta palavra significa. A infelicidade disso é que a própria palavra amizade tornou-se banal, frívola, rasa demais. “Amigo” é um termo usado hoje para qualquer um. 

Mas dos poucos que sabem o real, profundo e intocável significado da palavra amizade, tive a imensa sorte de encontrá-la. E hoje, dia 17 de maio, é o dia em que celebramos o seu aniversário. O dia em que Deus, imagino, pensou “A Terra está precisando de um agito diferente, de uma risada debochada, de uma fala autêntica, de uma cabeça cuidadosa, e de um coração de ouro. É, ainda não tem ninguém assim lá. Vou mandar a Carolina, chegou a vez dela”.

Deus, obrigada. Obrigada porque o Senhor sabia exatamente o que fazia quando orquestrou a vinda da Carolina ao mundo, no dia 17 de maio de 1986. E obrigada, porque alguns anos mais tarde, o Senhor deu um jeito de juntar os nossos caminhos!

E hoje, estou aqui, nova e incansavelmente, prestando a minha homenagem à pessoa que mudou a minha vida, à amiga que faz tudo valer a pena, à parte mais importante de mim. Feliz aniversário, melhor amiga. Amo você. Por toda a eternidade.

Dica para Leitura: Desaparecida por Catherine McKenzie


Terminei de ler essa belezinha esta semana. Essa dica é para as meninas e moças de plantão que adoram uma boa história que, obviamente, envolve triângulos amorosos, vida profissional, perdas dolorosas e grandes conquistas.

Emma é uma advogada bem sucedida que perde a mãe, sua única família, que a deixa como herança uma viagem para a África. Emma, relutante, decide honrar a vontade da mãe e, deixando para trás o emprego, o relacionamento e os confortos da vida moderna, embarca em uma viagem que irá mudar completamente o seu destino.

A grande mudança, porém, não acontece na África, e sim na sua volta para casa, quando descobre que em seus longos meses de distância e sem nenhum contato com seu passado, é dada como morta. 

Como recomeçar uma vida do zero? Como retomar relacionamentos e compromissos que foram terminados diante da crença de sua morte?

Como lidar com o fato de que seu apartamento havia sido alugado por um estranho, e ter quase todos os seus pertences jogados no lixo? E quando o tal estranho, Dominic, não é de fato tão estranho assim?

Boa leitura…

(Encontre este livro em PDF aqui)

Pies Descalzos, Sueños Blancos

Já nem sei há quanto tempo sonho em aprender a tocar violão. A verdade, acho, é que este era um sonho enrustido, que existiu apenas na minha negação – a questão era sempre andar na contramão do pai e da mãe, fazer (ou tentar fazer) exatamente o oposto do que eles esperavam ou que gostariam que a gente fizesse. “Não gosto de Guns’n Roses” foi a primeira alegação estúpida da minha adolescência, porque eu – por algum motivo – achava que meu pai gostava de Guns’n Roses. Pasmem: meu pai nunca ligou a mínima para Guns’n Roses. Ele, na verdade, tem um verdadeiro bom gosto musical, que eu acredito ter herdado completamente, e quem sabe até não usou alguma frase como “Guns é legal” em algum momento da minha iniciação musical, sabendo dos efeitos que esta frase causaria na minha mente, evitando assim o aborrecimento de ter Axl gritando pelos alto-falantes da casa “OOOOooOOOooOOOooo Sweet Child’o Miiiiine!”. Esperto, meu pai.

No fundo, no fundo, eu queria tocar guitarra. Mas não tive coragem de proferir a negativa em voz alta (“Não quero tocar guitarra”) – no caso, declarei aos 15 anos “Quero ser baixista”. Meu pai levantou a sobrancelha esquerda (genética, eu só consigo levantar a sobrancelha esquerda, mas há chances que tenha sido a direita, meu pai é muito mais habilidoso com suas sobrancelhas do que eu), me olhou por cima dos óculos e disse: “Certo. Vou arrumar um baixo pra você. Emprestado. Se você der conta, vemos de comprar um.” O baixo emprestado morou pouco mais de 12 meses no meu quarto. Eu não dei conta.

O tempo passou e eu decidi que “música não é pra mim”. Minha mãe, musicista formada pelo conservatório e pela universidade, achou que era importante que eu aprendesse algum instrumento (devidamente feminino). Como não levo o menor jeito para a flauta transversal (seu instrumento, e ela toca incrivelmente bem), me colocou nas aulas de teclado. Durei por cinco anos, e foi legal. Eu até cheguei a gostar de tocar, em algum momento, e as professoras eram quase minhas terapeutas. Foi uma época divertida, importante pra mim. Mas, passou. E “música não é pra mim” seguiu sendo meu lema.

O lema durou por mais de uma década. E para uma geminiana enjoada como eu, realmente não fazia sentido nenhum não esquecer a idéia do violão. De tempos em tempos eu cogitava “vou comprar um e dane-se”, mas desistia. Desisti algumas centenas de vezes, mas não o suficiente para esquecer.

E foi então que há duas semanas, de uma maneira totalmente aleatória, lá estava eu, Gisele, beirando os 31 anos de idade, usando um colete rosa-choque tipo caneta marca-texto, dentro da Guitar Center, em busca de um violão. “What the hell, Gisele?” – pensei umas três vezes. Paguei o maior mico do mundo com o vendedor, um moleque que aposto ser menor de idade, com os cabelos maiores que os meus, segurando o riso, tentando me mostrar as diferenças entre um instrumento e o outro (não o culpo, acho que os olhos dele estavam ardendo um pouco por causa do meu colete). 

Pensando em poupá-lo da dor nos olhos e nos ouvidos, pedi com todas as letras que ele me deixasse sozinha para escolher o pobre violão. Eu não sou uma pessoa que tem problemas em comprar nada (vide o colete rosa-choque), mas fiquei perdida em meio a tantas opções (não tinha nenhum violão rosa-choque, infelizmente). Brincadeiras a parte, escolhi. Há tempos não me sentia tão feliz.

Desde então venho praticando, primeiro sozinha, e por fim com a ajuda do meu pai que – como ele mesmo já sabe – é um ótimo professor. Ele me ensinou a tocar Amazing Grace (um hino evangélico), mas eu reaproveitei os mesmos acordes para tocar uma música da Shakira (vestígios da rebeldia adolescente?). Ontem fiquei muito tempo treinando a mesma música, rindo sozinha com meus erros e acertos. 

Não há, de fato, uma moral muito enigmática nessa história. A moral é muito óbvia. Tão óbvia, que não preciso descrevê-la. Essas conversas que ando tendo com meu eu adolescente são as mais proveitosas. Um pouco inúteis, acho, mas resultam sempre em bons sentimentos. “Evoluí” – digo à Gisele adolescente. 

Ela ri.

30 Dias Para os 31


Vamos tentar fazer um cowntdown até o dia 11 de Junho? Vamooooos!
Não, não prometo que vou conseguir postar todos os dias. Mas queria pelo menos tentar. É um jeito de tentar aproveitar intensamente cada um destes meus últimos dias com trinta anos de idade. É engraçado porque esse ano um monte de gente que eu conheço faz trinta – é engraçado pensar “been there, done that”, sabe?

Agora eu definitivamente me sinto muito mais adulta e dona do meu nariz do que quando estava na casa dos vinte. Não dá pra explicar muito bem como isso acontece, simplesmente você acorda um dia, se olha no espelho e pensa: trinta. Na figura refletida, nada mudou – nem a pele, nem o cabelo, nem o corpo, nem os hábitos. Mas por dentro, é como pressionar um botãozinho que diz “é isso aí, welcome to real life!” – e de repente tudo vem à tona.

Você pensa no mundo de outra forma, pensa na sua própria existência de outra forma. Os ‘grandes problemas’ que você achava que tinha resumem-se agora a um belo e redondo NADA. O que não importava, agora importa. O que importava, você nem lembra mais.

Veja bem, eu abandonei coisas que amava, como meus videos no YouTube (e não quer dizer que seja para sempre, mas se for, tudo bem), e passei a fazer questão de me preocupar com a minha saúde. Na verdade, é mais profundo que isso, mas acho que só vou conseguir explicar melhor depois dos quarenta (ou cinquenta… ou sessenta…).

Desejo de hoje: continuar focada no que importa de verdade. 

Para cada dia do countdown, um desejo. O de hoje é só esse.

G.