Capa da Insensibilidade

insensibilidade

substantivo feminino

1.

estado ou característica daquilo que é desprovido de sensibilidade a estímulo físico.

“i. ao frio”

2.

incapacidade de emocionar-se, de experimentar sentimentos de afeição, de amor, de piedade, pena etc.; frieza, indiferença, dureza.

Não dá. Não adianta! Por mais que eu tente, por mais potencializada que seja minha habilidade em escrever e descrever, não há monge, guru nem pajé que faça com que os outros entendam certas reações que eu tenho. Nem mesmo quem já passou por experiências parecidas com as minhas consegue essa proeza. Será que eu sou tão esquisita assim?

Coisas maiores acontecem, coisas menores acontecem, minha reação é sempre a mesma: ‘eu jamais faria isso com tal pessoa, por que tal pessoa fez isso comigo?’. Sabe aquela frustração de perceber que é só você que se coloca no lugar do outro? Só você precisa compreender, e entender, e ter empatia, e mesmo quando a coisa aperta pro seu lado é você que precisa correr atrás do prejuízo – prejuízo, a propósito, não causado por você? Sabe? Mas sabe MESMO ou está só concordando comigo pra acabar de vez com esse assunto? Sei.

Quero ser mais insensível este ano. Sério. INSENSÍVEL. Quero mesmo! Quero pensar nos problemas dos outros como problemas dos outros, e ‘sinto muito…’. Tenho um amigo que é muito, muito insensível. Tão insensível, que de vez em quando me pergunto que tipo de areia movediça ele carrega dentro do peito, porque com certeza, no fundo, no fundo, é um coração molenga – mesmo cinzento, assustador, engolidor de tudo o que o toca, não deixa de ser molenga.

A insensibilidade é uma capa, como aquela do Harry Potter, da invisibilidade. A gente se cobre com aquilo, ninguém enxerga, só a gente. Mas é preciso ser insensível, principalmente quando se é um poço sem fundo de sensibilidade aguda (como meu amigo, o mais insensível de todos). ‘Vista a capa, Gisele! Vamos, está na hora!’. É pra já.

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O Erro

A manhã de hoje resumiu-se a um encadeamento de presepadas não esperadas que resultará em um post para este blog. Não apenas isto, mas também como uma série de mini-ações a serem tomadas por quem vos escreve – deste momento em diante.

É quase inacreditável como um único erro pode transformar a vida em uma enorme sucessão de más escolhas. Eu sabia que não deveria ter saído ontem a noite, e mesmo assim, saí. Supostamente, o erro.

Quando a gente tem um plano e não o segue, erro. Quando rola um sexto-sentido e a gente o ignora, erro. Quando a gente se propõe a tal coisa e abre mão dela, erro.

Eu saí com as amigas ontem para jantar, o que resultou em comer algo novo, o que resultou em uma ingestão de sódio maior, e uma diferença de +362g na balança. Também resultou em perder o horário de dormir (sim, isso existe na minha vida), significando que não consegui acordar no horário para treinar, não consegui arrumar minha cama antes de sair de casa, e o pior, pior, PIOR DE TUDO – pessoas do gênero feminino entenderão – não havia consenso no que vestir! Eu troquei de roupa três vezes, e saí de casa infeliz (má escolha de composição, saí com blusa, calça e botas pretas e um blazer verde musgo e azul marinho – que à meia-luz do meu closet me pareceu verde musgo e preto, ou seja, cheguei no trabalho e arranquei-o sem pensar duas vezes, maldito blazer verde musgo e azul marinho! Patético.) e minutos atrasada.

Cheguei no escritório às nove em ponto.

Então comecei a escrever, com o coração às palpitadas, brusco, pensando “gostaria poder começar o dia de hoje novamente”. Foi aí que percebi que ontem não usei o meu planner. Ele está aqui neste exato momento, me encarando com um pouco de raiva. Erro.

Não planejei, não escrevi, não segui meu próprio manual. Apenas agi por impulso e naturalidade e disse sim ao que achava que deveria e não ao que não me importava naquela hora. Seria este o erro?

Pensando friamente, ontem mesmo foi um dia anormal. E anteontem, no domingo, ainda mais estranho. Bom, se falarmos sobre o sábado que antecedeu e todas as horas que passei revendo videos e fotos sobre minha vida de antes, e mais um dilúvio de memórias e lembranças e do poço de nostalgia que me atirei, acho que dá pra achar que esse sim foi o erro. Ou talvez tenha sido algo ainda antes disso…? Provavelmente.

Erro, todos os dias. Este post com certeza foi um erro também. Posso simplesmente não publicá-lo, apagá-lo, fingir que nunca existiu. Mas que graça teria? Não tem graça não errar. Não tem graça não ser eu. Só que hoje, com a mistura preto – verde musgo – azul marinho eu tenho certeza absoluta que eu exagerei. Que erro…

Dois Mil e Dezoito

Em 1998 eu fiz as contas de quantos anos teria em 2018 – tinha toda minha vida planejada na ponta da língua. Decidi que seria juíza (porque queria ‘mandar’ nos advogados e em todas as pessoas ao meu redor, ser a respeitadíssima e temida Juíza Gisele Trimboli hahaha), casada, com flhos, morando em uma casa com muitos andares, muitas janelas, um cachorro grande e muito, muito rica (eu escolhia minhas futuras profissões criteriosamente, perguntando “Pai, quanto ganha um dentista? E um advogado? E um juíz?’. Super sensata e realista para uma jovem de 12 anos!).

E cá estou eu, com 95% dos meus planos totalmente invertidos hahahahaha! Mas feliz, feliz por ser dois mil e dezoito. A virada do ano foi ótima, alegre, saltitante e desajeitada. Tudo o que eu queria.

Queria também ter escrito algo mais cedo, não loooogo no dia 1º porque não dava (ocupada demais segurando o sofá pra baixo), mas no dia 2, onde tudo oficialmente começa.

E começa mesmo! Voltei aos meus exercícios e à vida 100% (err.. 99%) regrada, cumprindo todos os propósitos propositalmente propostos (ui!) incluindo – UM LIVRO!

Não, meus livros estão empacados. Zero inspiração. Mas comecei a primeira leitura do ano. Kristin Hannah, é claro! “As Cores da Vida”. O livro tem trezentas e poucas páginas e eu já li 175. Justificado o sumiço para quem trabalha integralmente e é dona de casa nas horas vagas, né?

Voltarei, em breve.

Que 2018 seja tudo aquilo que todo mundo quer que ele seja, pra mim, pra você, pra todo mundo!

Gi

Adeus, 2017

Quanto tempo!

E quantos posts começados, repensados, deletados nestes últimos meses. Eu poderia começar este last post of the year dizendo que está tudo bem, que eu continuo a mesma de sempre, indo e vindo e coisa e tal. Mas seriam inverdades.

Eu não sou mais a mesma desde Setembro. Não somente pelos vários quilos que eliminei do meu corpo, mas principalmente porque estou, como costumo descrever, em processo de desabrochamento.

Como todo bom e velho discurso de final de ano, preciso sintetizar 2017 em uma única frase, e no meu caso, salvo engano, 2017 resume-se a um belo “O que foi isso?”.

Eu nunca vivi tantas coisas boas e tantas coisas ruins em um ano só. Nunca me senti tão nômade, viajando como never before, e nunca me senti tão enraizada a um único lugar, a minha casa.

Não me lembro de ter conhecido – ou melhor – instituído tantos amigos como em 2017, e também não me lembro de nenhum outro ano em que sofri tanto por questões fraternas.

Acredito também que 2017 foi o primeiro grande ano no meu casamento, sem escandalizações ou hipocrisia, quem já casou alguma vez na vida – principalmente se conseguiu permanecer casado – sabe a dificuldade que é o início de um casamento. 2017 foi nosso quarto ano de casados, e finalmente posso acreditar que o casamento foi feito para a felicidade, e não angústia, dos seres humanos.

Este ano comecei agarrada na igreja, e terminei agarrada em Deus.

Um ano de absurdos políticos, crises econômicas, com mais corrupção, com discursos de xenofobia, diminuição da mulher, separação de raças, um ano em que milhares de idiotas saíram dos seus armários imundos e preconceituosos. Nunca me senti tão brasileira, em nenhum outro ano vivendo fora do Brasil. Nunca me senti mais forte e orgulhosa por ser mulher. Nunca estive mais atenta e empática ao alheio. O alheio, de fato, não existe – e tolos são os que acreditam nisso.

E, não poderia deixar de mencionar algo, no mínimo, inesperado – 2017 foi o ano que me tornei Facebook-free! Ou seja, desativei minha conta, desapeguei dos dramas particulares e da negatividade que aquela plataforma jorrava na minha cara logo pela manhã, todos os dias da semana, todas as semanas do mês, todos os meses dos últimos dez anos. Dez anos foi o tempo que levou para que um prazer tornasse-se um desgosto. Talvez esta tenha sido não a maior, mas a mais qualitativa de todas as decisões que tomei em 2017.

Que grande ano, 2017. O ano da minha iniciação em Star Wars. O ano em que passei a acreditar na Força e admirar os Jedi. Parece bobagem, mas só para quem não entende.

Me despeço de 2017 com muito alívio e muita gratidão. Costumo dizer que anos ímpares são sempre os mais difíceis para mim. Não é mitologia, crendice, superstição. É apenas o que é. Anos ímpares são, por algum motivo, muito desafiadores. São a dor muscular que se sente depois do exercício físico puxado – aquela dor necessária, que vem acompanhada do sentimento de missão cumprida. É isso.

Espero que as lições aprendidas neste ano sejam perpetuadas durante minha existência. Espero não esquecer o que vivi, porque tudo foi de muita importância.

A você que leu este texto, deixo toda minha gratidão. Se me acompanhou, seja lá por qual motivo, durante o ano de 2017, espero também ter agregado algo de bom à sua vida. Se não agreguei, peço então mais uma chance – deixo aqui a lista de todos os livros lidos por mim no ano de 2017:

1- Quando Você Voltar – Kristin Hannah

2- Eu Acho que Amo Você – Allison Pearson

3- A Melhor Coisa que Nunca Aconteceu na Minha Vida – Laura Tait

4- A Memória de Uma Amizade Eterna – Gail Caldwell

5- Desaparecida – Catherine McKenzie

6- O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wild

7- Mulheres Francesas Não Engordam – Mireille Guiliano

8- Sissi – A Imperatriz Solitária – Allison Pataki

9- 30 e Poucos Anos e Uma Máquina do Tempo – Mo Daviau

10- Por Que Engordamos – Gary Taubes

11- Além da Esperança – Kristin Hannah

12- Barriga de Trigo – William Davis

13- Um Dia – David Nicholls

Um ótimo final de ano a todos!

Abraços,

Gisele

Nós Somos Bicho

Eu não sou muito de ir em médico pra coisa nenhuma, mas lembro bem dos médicos que cuidaram de mim durante toda a infância. Eu nasci e cresci em São Paulo, um estado que teve a sorte de receber muitos imigrantes japoneses. Ambos, Dra. Yvete, minha pediatra, e Dr. Mario Yamashita, meu otorrino, eram japoneses.

Lembro de um episódio desses ‘clássicos da infância’ em que tive um tipo qualquer de virose. Devia ter por volta de 8 anos de idade e, naquela época, eu ainda não era muito boa de prato. Nunca fui uma criança obesa, mas também nunca fui magrela. Era, como sempre ouvi, ‘normal’. E neste episódio, mamãe me levou à clínica da Dra. Yvete. Ah! Como tudo era mais simples e despretencioso naquela época.

A Dra. Yvete me receitou um remédio de gosto horroroso, mas de uma coloração tão, mas tão rosa-choque, que eu conseguia até ficar feliz em ter que tomá-lo. Era o remédio (líquido, por sinal) cor-de-rosa mais fosforescente que você pode imaginar. Acompanhadas do remédio, as seguintes recomendações: “Comida: fria. Não tem fome, não come. Gelatina e Coca-Cola, a hora que quiser.” Eu sarei. 

Depois de alguns anos, foi o consultório do Dr. Yamashita o que eu mais frequentei. Foi a fase das intermináveis dores de ouvido e dores de garganta que toda criança passa. Naquela época, já acompanhada da Letícia (minha irmã, caçula). Eu ficava impressionada com a precisão do Dr. Yamashita e com tudo naquele lugar. Até hoje, lembro exatamente da sala de espera e do consultório que era dividido em duas partes, uma com sua escrivaninha, e a outra com a maca e as luminárias que brilhavam e ardiam os olhos apontadas para a nossa cara. Era demais.

O Dr. Mario Yamashita, imagino, já conseguia, naquala época, detectar os meus primeiros sinais de obesidade pré-adolescente (dos onze aos treze anos eu estive bem acima do peso) – bem como o total desinteresse da minha irmã pela comida, no geral. Éramos, naquela época, dois pequenos opostos de ‘fim de infância/início de puberdade’ e ‘fim de desfralde/início de autonomia infantil’. Eu não tinha o menor problema com a comida, minha irmã tinha quase todos.

Meu otorrino era um médico de poucas e sábias palavras. Quisera tê-lo ouvido naquela época, pois teria me poupado de tantos problemas… Ele dizia o seguinte: “Observe a natureza. Os animais bebem água. Os animais comem planta. Os animais comem fruta. Outros, comem carne. Bicho não bebe leite. Bicho não bebe suco. Bicho não bebe refrigerante. Bicho não come açúcar. Nós somos bicho. Temos que comer e beber como bicho.”

Tudo, tudo o que eu levei uma vida toda para entender, simplesmente explicado em pouquíssimas frases pelo médico que cuidou de mim ainda tão nova. Aquele homem, que já era um senhor naquela época, não era necessariamente um visionário (se pensarmos na era paleo/low carb que vivemos atualmente) – ele era prático, simples, era, na verdade, muito óbvio! Ele, meu querido otorrino, Dr. Mario Yamashita, estava certo o tempo todo.

A medicina evoluiu, as doenças também. Ou vice-versa. Acho que uma coisa puxa a outra, na verdade. Mas quase ninguém pensa ou enxerga as indústrias alimentícias e farmacêuticas como o que elas realmente são: máquinas de dinheiro. Primeiro, eles nos entopem com tudo o que nos prejudica, e depois tentam nos consertar com produtos químicos de todos os tipos. Isso é contra a nossa natureza. “Nós somos bicho.”

Hoje quando chegar em casa, faça um exercício. Abra sua dispensa e sua geladeira e procure tudo o que é processado. Adoçante químico é algo que não existe na natureza. É como plástico. Cada vez que você ingere qualquer adoçante químico, é como se estivesse comendo um pedaço de tupperware. Como isso pode ser bom? Como podemos beber líquidos que não conseguimos se quer detectar do que são compostos? Como isso não é assustador?

Eu não quero soar hipócrita. Não quero mesmo. Mas há uma venda enorme caindo dos meus olhos por estes tempos, e é chocante. A realidade é chocante. Precisamos pensar que nossos corpos não são compactadoras de lixo. Não foi assim que Deus nos criou. Temos que cuidar bem dele, é tudo o que nos resta. 

Desejo a você uma vida mais consciênte, com escolhas que apenas te façam bem. Lembre-se do que o Dr. Yamashita dizia. Nos somos bicho – mas precisamos ser mais racionais. É a nossa condição.

É isso.

O Que Vale

Há exatamente um ano minha melhor amiga foi diagnosticada com a doença celíaca. Há exatamente um ano, as nossas vidas mudaram completamente.

Não vou escrever sobre isso. Mas vou escrever ao redor disso.

Quantas vezes você se deparou com mudanças radicais em sua vida? De onde elas vieram? Por que aconteceram? Foram escolhas? Foram consequências? Foram riscos tomados? Foram resultados? Até que ponto temos o controle do que nos acontece? Até onde devemos nos cobrar ou nos forçar?

São muitas perguntas, provavelmente ninguém tenha uma resposta concreta a todas elas. Acho que tudo bem, pois eu muito menos.

O que eu sei é que quanto mais o tempo passa, mais temos a possibilidade de desvendar pequenos mistérios sobre a nossa própria existência. Imagine que a sua vida é um longo labirinto, não necessariamente assustador, não absolutamente enigmático, não completamente confuso. Apenas um labirinto, com portas e janelas, e que conforme você caminha, pé ante pé, as portas e janelas se abrem, e você consegue enxergar o que há do outro lado. Acho que a maturidade acontece assim. Talvez este seja o significado da frase “eu sei porque já passei por isso”. Talvez muitas das janelas e portas se repitam, em proporções e momentos distintos, nas vidas de todos nós.

O que importa, afinal, é entender que o labirinto deve ser percorrido. Você pode até parar aqui ou ali, para tomar um ar, observar uma paisagem, quem sabe até fazer um picnic, tirar uma soneca. Mas no final, seguirá em frente. 

Se você sofre, por exemplo, com a ansiedade ou com a depressão, insista na idéia do labirinto. Pensar muito nos caminhos que você já percorreu, ser obcecado pela trilha que ficou para trás, nada mais é do que a depressão. Se preocupar ao extremo com o caminho à frente, questionar demais as portas e janelas, não conseguir alcançar a tranquilidade pensando em quantos passos mais você terá que percorrer, nada mais é do que a ansiedade. Nem o passado, nem o futuro devem prendê-lo ao presente. O que foi, foi. O que virá, virá. Ter desapego e ter paciência é o que vale.

No caminho, cada experiência é uma oportunidade de crescimento, mas nenhuma delas, boa ou ruim, é o veredito final do quanto vale a sua vida. Apenas recolha os ensinamentos, descarte os maus sentimentos, e cuide para não tropeçar de novo nos mesmos erros. 

Falar é fácil, mas viver tudo isso é muito complexo – e eu sei bem. Talvez você tenha recebido uma notícia muito difícil hoje. Talvez você esteja frente a frente com uma porta em seu labirinto que acaba de ser aberta e revelar a você uma caminhada de dificuldades. Não desanime. Outras janelas e portas virão, tenha certeza disso. Os caminhos de dificuldade o tornarão mais forte, mais consciente, mais assertivo.

O que vale é o que se vive, não há destino final, há apenas uma jornada. Portanto, respire, reflita, e foque suas energias no presente. O presente é o que vale. 

Força.

Arrume a Casa

Não quero soar dramática, mas acontece. Acontece que por vezes, ao longo da vida – e eu com meus longos trinta e um anos de idade posso afirmar com toda propriedade – a gente acaba agindo errado e estragando alguns dos relacionamentos com as pessoas mais importantes que passarão por ela. 

É, eu sei bem. Tinha um amigo que foi a pessoa mais importante de todas para mim desde antes de mudar para os EUA, sentimento que se intensificou ainda mais depois que me mudei, pois ele, um ano antes, havia passado por esta mesmíssima mudança. 

Lembro que foi ele que me ajudou inúmeras vezes com os deveres de casa das aulas de inglês da faculdade, foi ele que me ensinou palavras importantíssimas de saber na sociedade americana, como por exemplo straw, napkins e também expressões fundamentais como “I hope you feel better soon”. Eu não falava uma palavra em inglês, e ele, com seu enorme coração, não negou em momento algum em me apontar o caminho das pedras. Por vezes, segurou na minha mão e me ajudou a caminhar.

Passávamos horas conversando de madrugada ainda pelo velho Nextel, um confortando o outro sobre a saudade de casa, sobre as descobertas do mundo novo, sobre os medos do futuro. Eu falava do meu cachorro, e ele me contava de todos os seus bichos de estimação, todos eles deixados no Brasil. 

Nós também ríamos muito fazendo graça das pessoas que conviviam com a gente naquele momento, reclamando dos nossos até então sub-empregos, falando mal dos brasileiros que chegavam na América e, de repente, começavam a agir como se pertencessem a algum tipo de família imperial (aposto que isso não mudou!). 

Ele foi meu maior conselheiro, ele me ouviu todas as vezes em que eu me deprimi, pensando em tudo o que eu havia deixado para trás. Ele foi o primeiro amigo a me visitar, e o primeiro que eu visitei, porque infelizmente vivemos a algumas horas de avião um do outro (males de terras largas).

No meio do caminho, coisas aconteceram. Comigo, com ele, a vida aconteceu. Talvez pela confusão interna que eu vivia, e pelo turbilhão de sentimentos que ele vivia, não soubemos lidar com essa nuvem negra que pairou sobre as nossas cabeças, ficando lá estacionada por alguns meses, quem sabe até anos.

Se eu fosse contar aqui tudo o que este amigo e eu já vivemos juntos, poderia começar um terceiro livro. Mas não teria coragem de escrever um livro sem final. Porque hoje, este livro não teria um final. Eu me recuso a pensar que uma amizade que significa tanto esteja como está.

Essa história de cada um no seu canto é mesmo muito triste. Ultimamente tenho pensado muito a respeito disso. Quantas pessoas importantes eu magoei por conta de um dos meus recolhimentos emocionais? Não, não quero mais que isso aconteça.

Se a história de hoje fizer qualquer sentido, cabe então uma conclusão. Não deixe de resolver suas pendências com as pessoas que você ama. Na amizade, no amor, na relação pais e filhos e na relação fraterna, o amor é sempre o mais importante, mas não é o que sustenta. Não é o amor que sustenta os relacionamentos, é o modo de se relacionar que sustenta o amor.

Eu errei com meu amigo, e demorei para aprender com meu erro. Na verdade, repeti o erro com outra pessoa, o me vi na mesma situação outra vez. Fiquei um pouco chocada com a minha própria burrice e insensibilidade. Matutei sobre isso tantas vezes nos ultimos dias que até pensei em fazer uma lista com os nomes de todas as pessoas que eu mandei para o meu exílio emocional, o “vale dos sem Gisele”. Isso me deixou com um certo receio e uma ponta de ansiedade, então desisti.

Mas neste longo caminho que é a vida, ao mesmo tempo tão curto, não quero deixar de acreditar em segundas chances. Não quero deixar de acreditar na força do perdão. Não quero abrir mão de tudo o que eu vivi com quem certamente ainda faz tanta diferença na minha vida.

Não é bom seguir em frente e ignorar o que está fora do lugar. Arrume a casa, arrume seu coração. Eu estou, em doses homeopáticas, tentando fazer o mesmo por aqui.

Força.