Arrume a Casa

Não quero soar dramática, mas acontece. Acontece que por vezes, ao longo da vida – e eu com meus longos trinta e um anos de idade posso afirmar com toda propriedade – a gente acaba agindo errado e estragando alguns dos relacionamentos com as pessoas mais importantes que passarão por ela. 

É, eu sei bem. Tinha um amigo que foi a pessoa mais importante de todas para mim desde antes de mudar para os EUA, sentimento que se intensificou ainda mais depois que me mudei, pois ele, um ano antes, havia passado por esta mesmíssima mudança. 

Lembro que foi ele que me ajudou inúmeras vezes com os deveres de casa das aulas de inglês da faculdade, foi ele que me ensinou palavras importantíssimas de saber na sociedade americana, como por exemplo straw, napkins e também expressões fundamentais como “I hope you feel better soon”. Eu não falava uma palavra em inglês, e ele, com seu enorme coração, não negou em momento algum em me apontar o caminho das pedras. Por vezes, segurou na minha mão e me ajudou a caminhar.

Passávamos horas conversando de madrugada ainda pelo velho Nextel, um confortando o outro sobre a saudade de casa, sobre as descobertas do mundo novo, sobre os medos do futuro. Eu falava do meu cachorro, e ele me contava de todos os seus bichos de estimação, todos eles deixados no Brasil. 

Nós também ríamos muito fazendo graça das pessoas que conviviam com a gente naquele momento, reclamando dos nossos até então sub-empregos, falando mal dos brasileiros que chegavam na América e, de repente, começavam a agir como se pertencessem a algum tipo de família imperial (aposto que isso não mudou!). 

Ele foi meu maior conselheiro, ele me ouviu todas as vezes em que eu me deprimi, pensando em tudo o que eu havia deixado para trás. Ele foi o primeiro amigo a me visitar, e o primeiro que eu visitei, porque infelizmente vivemos a algumas horas de avião um do outro (males de terras largas).

No meio do caminho, coisas aconteceram. Comigo, com ele, a vida aconteceu. Talvez pela confusão interna que eu vivia, e pelo turbilhão de sentimentos que ele vivia, não soubemos lidar com essa nuvem negra que pairou sobre as nossas cabeças, ficando lá estacionada por alguns meses, quem sabe até anos.

Se eu fosse contar aqui tudo o que este amigo e eu já vivemos juntos, poderia começar um terceiro livro. Mas não teria coragem de escrever um livro sem final. Porque hoje, este livro não teria um final. Eu me recuso a pensar que uma amizade que significa tanto esteja como está.

Essa história de cada um no seu canto é mesmo muito triste. Ultimamente tenho pensado muito a respeito disso. Quantas pessoas importantes eu magoei por conta de um dos meus recolhimentos emocionais? Não, não quero mais que isso aconteça.

Se a história de hoje fizer qualquer sentido, cabe então uma conclusão. Não deixe de resolver suas pendências com as pessoas que você ama. Na amizade, no amor, na relação pais e filhos e na relação fraterna, o amor é sempre o mais importante, mas não é o que sustenta. Não é o amor que sustenta os relacionamentos, é o modo de se relacionar que sustenta o amor.

Eu errei com meu amigo, e demorei para aprender com meu erro. Na verdade, repeti o erro com outra pessoa, o me vi na mesma situação outra vez. Fiquei um pouco chocada com a minha própria burrice e insensibilidade. Matutei sobre isso tantas vezes nos ultimos dias que até pensei em fazer uma lista com os nomes de todas as pessoas que eu mandei para o meu exílio emocional, o “vale dos sem Gisele”. Isso me deixou com um certo receio e uma ponta de ansiedade, então desisti.

Mas neste longo caminho que é a vida, ao mesmo tempo tão curto, não quero deixar de acreditar em segundas chances. Não quero deixar de acreditar na força do perdão. Não quero abrir mão de tudo o que eu vivi com quem certamente ainda faz tanta diferença na minha vida.

Não é bom seguir em frente e ignorar o que está fora do lugar. Arrume a casa, arrume seu coração. Eu estou, em doses homeopáticas, tentando fazer o mesmo por aqui.

Força.

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