Pies Descalzos, Sueños Blancos

Já nem sei há quanto tempo sonho em aprender a tocar violão. A verdade, acho, é que este era um sonho enrustido, que existiu apenas na minha negação – a questão era sempre andar na contramão do pai e da mãe, fazer (ou tentar fazer) exatamente o oposto do que eles esperavam ou que gostariam que a gente fizesse. “Não gosto de Guns’n Roses” foi a primeira alegação estúpida da minha adolescência, porque eu – por algum motivo – achava que meu pai gostava de Guns’n Roses. Pasmem: meu pai nunca ligou a mínima para Guns’n Roses. Ele, na verdade, tem um verdadeiro bom gosto musical, que eu acredito ter herdado completamente, e quem sabe até não usou alguma frase como “Guns é legal” em algum momento da minha iniciação musical, sabendo dos efeitos que esta frase causaria na minha mente, evitando assim o aborrecimento de ter Axl gritando pelos alto-falantes da casa “OOOOooOOOooOOOooo Sweet Child’o Miiiiine!”. Esperto, meu pai.

No fundo, no fundo, eu queria tocar guitarra. Mas não tive coragem de proferir a negativa em voz alta (“Não quero tocar guitarra”) – no caso, declarei aos 15 anos “Quero ser baixista”. Meu pai levantou a sobrancelha esquerda (genética, eu só consigo levantar a sobrancelha esquerda, mas há chances que tenha sido a direita, meu pai é muito mais habilidoso com suas sobrancelhas do que eu), me olhou por cima dos óculos e disse: “Certo. Vou arrumar um baixo pra você. Emprestado. Se você der conta, vemos de comprar um.” O baixo emprestado morou pouco mais de 12 meses no meu quarto. Eu não dei conta.

O tempo passou e eu decidi que “música não é pra mim”. Minha mãe, musicista formada pelo conservatório e pela universidade, achou que era importante que eu aprendesse algum instrumento (devidamente feminino). Como não levo o menor jeito para a flauta transversal (seu instrumento, e ela toca incrivelmente bem), me colocou nas aulas de teclado. Durei por cinco anos, e foi legal. Eu até cheguei a gostar de tocar, em algum momento, e as professoras eram quase minhas terapeutas. Foi uma época divertida, importante pra mim. Mas, passou. E “música não é pra mim” seguiu sendo meu lema.

O lema durou por mais de uma década. E para uma geminiana enjoada como eu, realmente não fazia sentido nenhum não esquecer a idéia do violão. De tempos em tempos eu cogitava “vou comprar um e dane-se”, mas desistia. Desisti algumas centenas de vezes, mas não o suficiente para esquecer.

E foi então que há duas semanas, de uma maneira totalmente aleatória, lá estava eu, Gisele, beirando os 31 anos de idade, usando um colete rosa-choque tipo caneta marca-texto, dentro da Guitar Center, em busca de um violão. “What the hell, Gisele?” – pensei umas três vezes. Paguei o maior mico do mundo com o vendedor, um moleque que aposto ser menor de idade, com os cabelos maiores que os meus, segurando o riso, tentando me mostrar as diferenças entre um instrumento e o outro (não o culpo, acho que os olhos dele estavam ardendo um pouco por causa do meu colete). 

Pensando em poupá-lo da dor nos olhos e nos ouvidos, pedi com todas as letras que ele me deixasse sozinha para escolher o pobre violão. Eu não sou uma pessoa que tem problemas em comprar nada (vide o colete rosa-choque), mas fiquei perdida em meio a tantas opções (não tinha nenhum violão rosa-choque, infelizmente). Brincadeiras a parte, escolhi. Há tempos não me sentia tão feliz.

Desde então venho praticando, primeiro sozinha, e por fim com a ajuda do meu pai que – como ele mesmo já sabe – é um ótimo professor. Ele me ensinou a tocar Amazing Grace (um hino evangélico), mas eu reaproveitei os mesmos acordes para tocar uma música da Shakira (vestígios da rebeldia adolescente?). Ontem fiquei muito tempo treinando a mesma música, rindo sozinha com meus erros e acertos. 

Não há, de fato, uma moral muito enigmática nessa história. A moral é muito óbvia. Tão óbvia, que não preciso descrevê-la. Essas conversas que ando tendo com meu eu adolescente são as mais proveitosas. Um pouco inúteis, acho, mas resultam sempre em bons sentimentos. “Evoluí” – digo à Gisele adolescente. 

Ela ri.

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