O Que Aconteceu na Minha Vida nos Últimos Dez Anos


Há exatos dez anos, eu vivi a quarta-feira mais gelada de toda a minha vida. Talvez você pense que foi por conta dos muitos graus abaixo de zero – a primeira sensação física que eu senti em solo americano, quando pisei por primeira vez em Chicago. Eu lembro bem, estava tão desiludida que me forcei a sair do avião com o pé direito. Em tempos de crise e guerra interior, qualquer superstição parece ser uma bóia grande o suficiente pra não deixar a gente se afogar.

Falando em afogamentos, foram muitas lágrimas derramadas. Eu não sei o quanto chorei, mas lembro de chorar até dormir, exausta, vermelha, com o nariz ressecado por causa de um aquecedor que soprava a noite toda bem em cima da minha cabeça. 

Eu colei muitas fotos na porta do quarto que eu dormia (que nunca consegui, de fato, chamar de “meu”), lembranças de uma vida que eu sabia, por algum motivo, que jamais voltaria a viver. Bem no centro da porta, colei uma frase, enorme, que dizia: “Nunca Esqueça Quem Você É”. O meu maior medo não era esquecer as pessoas, os lugares, os cheiros e sabores. Meu maior medo era esquecer a mim mesma. Esquecer a Gisele de vinte anos, sete meses e vinte dias. 

Tinha pavor em me olhar no espelho e não me reconhecer. Não saber quem eu era, não saber que propósito minha vida tinha, não entender, de verdade, que raios eu fazia ali, naquele quarto, naquele apartamento (apartamento!!!), naquela cidade, no meio de tudo o que eu nunca quis, nunca sonhei, e simplesmente não sabia o que fazer com ela. Com a Gisele.

“Gisele, o que você quer ser quando crescer?” – Foi o que a coordenadora da faculdade me perguntou no dia em que fui me matricular para algum curso, de alguma coisa que eu não fazia a menor idéia do que seria. Eu não falava inglês – não era capaz de montar uma frase simples como: “I don’t know what I want to be.” Eu não era capaz de dizer estas palavras em inglês, mas era capaz de sentí-las. Estavam estampadas na porta daquele quarto. Eu não sabia o que queria, porque tudo o que eu queria eu já não tinha mais. E ainda assim, não queria esquecer. 

“Gisele, onde você está?”. Foi uma pergunta constante, que me perguntei milhares de vezes. Algumas dessas vezes houveram respostas. E algumas dessas respostas me pareceram muito convincentes. Mas eu estava equivocada, uma, duas, dez vezes.

Dez. Que número. Dez é um número tão bonito! “Você é dez, Gi!” – ouço minha vó falar enquanto cozinhamos alguma coisa na cozinha, e ela me ensina o jeito certo de dar ponto na massa. Dez era o número do orgulho dos meus pais nas minhas redações na escolha, nas minhas provas de História e em alguns projetos da faculdade. Aquela, que eu tive que trancar.

Mas dez ANOS? Dez anos é muita coisa. Dez anos foi o tempo de vida que eu levei para entender que não se pode ter tudo, mas com dez anos a gente tem esperança que pode, que os adultos é que estão errados, que um dia “eu vou descobrir um jeito de fazer tudo o que eu quero, e vou conseguir!”. Ah, Gisele! Você com dez anos era mesmo uma figura. Eu não me esqueci.

Hoje, dez anos de América. Que frase mais esquisita! Mas sabe que, apesar das dificuldades de adaptação, não foi uma década ruim. Pelo contrário!

O que a Gisele de vinte anos não sabia que a Gisele de trinta sabe, é o que a Gisele de dez já tinha certeza! No final, era a Gisele de dez que tinha toda razão. Ela ficaria muito feliz em saber disso, mas ela realmente já sabia.

Entre 2007 e 2017 eu aprendi que a felicidade depende de mim. Da minha cabeça. Ela é uma escolha – acredite, ela é! Você escolhe ser feliz, porque você percebe que a vida passa voando, e que se você não fizer esta escolha, você não vai ter outra chance de fazer com que ela aconteça.

Eu escolhi estudar. Escolhi aprender a ler, escrever e falar inglês o melhor que pude. Me esforcei muito. Escolhi trabalhar, e fui babá de criança, fui babá de cachorro, descobri o YouTube e ganhei dinheiro com ele também. Escolhi conhecer pessoas, e quebrei a cara (feio) algumas vezes, mas no geral, cara, quanta gente boa existe aqui! Eu escolhi mudar o cabelo – e não fui julgada por isso como seria se não vivesse aqui! Eu escolhi aprender a usar maquiagem, e mais uma vez entendi que aqui é o melhor lugar para isso (principalmente para cometer os primeiros e piores erros…). Eu escolhi namorar, e namorei, noivei, desmanchei, namorei, noivei e casei. 

Eu escolhi usar a minha cabeça, arregaçar as mangas e levantar todos os dias da minha cama pensando no meu futuro. Eu escolhi ser esforçada e aproveitar todas as oportunidades de trabalho como uma maneira de me desenvolver como ser humano – pessoal e profissionalmente. Eu escolhi juntar dinheiro. Eu escolhi viajar. Eu escolhi engordar, e escolhi emagrecer. Escolhi tratar todos de igual para igual. Escolhi prestar atenção numa cultura que não é minha, e escolhi fazer parte dela.

Não, a minha história com a América não começou com uma escolha. Mas eu descobri um jeito de fazer tudo o que eu queria, e consegui! Através das escolhas que fiz depois da minha ausência de escolha. Porque, como diria a Gisele de quinze: “a vida é minha e eu faço o que eu quiser!”. O que será que a Gisele de quarenta e cinco terá a declarar sobre isso? Saberemos em quinze anos.

Por hora, apenas posso dizer que escolher viver a felicidade não significa escolher esquecer as dores, ou apagar o passado. Todo o meu sofrimento teve um enorme valor. Todas as barreiras que foram colocadas em meu caminho foram pequenos saltos para a minha própria vitória. Mas machucaram, porque eu caí algumas vezes. Só que levantei, porque eu sou assim mesmo, não me deixo vencer pela dor.

Parabéns, Gisele. Com dez, vinte ou trinta, que a América seja seu lar de escolha, do coração, enquanto te fizer feliz.

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Um comentário sobre “O Que Aconteceu na Minha Vida nos Últimos Dez Anos

  1. Parabéns Gi!!!! Você é uma vitoriosa e inspira muita gente. Como é fácil eu me identificar com você. Não, não me mudei pra a América a 10 anos. Mas faz 10 anos em que tomei decisões e fiz escolhas que viraram minha vida de cabeça para baixo. Enfim desejo que Deus derrame benção sem medidas em sua vida. Bjus

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