Sobre Vôos, Despedidas e Acidentes de Percurso

Antes de tudo, quero agradecer ao meu pai que leu meu post de ontem e me mandou uma lista enorme de sugestões super legais de temas que muito em breve colocarei em prática. Obrigada, pai!

E hoje, conversando com Carolina, me dei conta de que um dos motivos da minha congestão psicológica e criativa deve-se ao seguinte fato: duas horas antes de ir para o aeroporto, coincidentemente no dia 28 de Novembro de 2016, no período da noite, foi quando se deu o ocorrido (o tal que não deve ser exposto aqui).

Eu sempre escrevo muito sobre minha partida do Brasil em 2007. Sempre falo muito sobre como foi difícil partir, sobre como foi difícil sobreviver do momento em que me dei conta que tinha ido embora em diante, sobre o dia em que acordei nos EUA e entendi que não era uma simples viagem de turismo, e sim uma mudança total de vida, por tempo indeterminado

Quando escrevo a respeito de tudo, escrevo no passado. Contando fatos e sentimentos que já beiram uma década. Para quem lê o que eu escrevo, imagino que seja como ouvir uma história, ver um capítulo de um seriado, ler uma crônica em um livro. Deve soar como um passado muito longínquo, como um momento de vida que simplesmente ficou para trás. 

Não. Não é bem assim. E ninguém, eu sei, tem a obrigação de entender isso. Mesmo assim, vou tentar explicar. Cada vez que eu sei que é hora de ir embora, cada vez que eu me vejo fechando minhas malas, cada vez que olho para o rosto da minha avó, ou para a vista da cidade pela janela do seu apartamento, cada vez que organizo meus documentos e confiro se está tudo certo, cada vez que eu atendo o telefone e recebo uma mensagem de “boa viagem”, cada vez que eu toco num móvel, numa pintura, ou num pedaço da parede, cada vez que eu escuto um barulho do lado de fora, ou o som da TV, cada vez que eu penso que não sei quando será a próxima vez que irei respirar aquele ar morno do lugar que me gerou e me criou por tantos anos… É muito, mas muito difícil. 

Eu saí do Brasil dessa última vez com os nervos e as emoções virados do avesso, e isso aconteceu duas horas antes de pisar naquele aeroporto e entrar num avião. A primeira vez que eu entrei num avião foi no dia que me mudei para os EUA. Tenha certeza, não é a melhor das lembranças que eu carrego comigo

Naquela mesma noite, enquanto o meu avião seguia em direção à América do Norte, um outro avião encontrava seu inacreditável e fatal destino final. Foi o avião que levava todos aqueles jogadores do Chapecoense, e que, só Deus sabe o motivo, terminou naquela tragédia, de uma maneira que nunca ninguém imaginara que pudesse acontecer. 

Pode parecer dramático, exagerado, mas a verdade é que poderia ter sido o meu avião. Poderia ter sido qualquer outro avião. Poderia ter sido a minha vida. Poderia ter sido qualquer outra vida. Eu já passei por um problema terrível no ano passado quando, em pleno vôo, meu avião teve o motor esquerdo quebrado, e tivemos que fazer um pouso assustador de emergência. Eu sei o que é o desespero de pensar que poderia, realmente, ter morrido. Deus poupou a minha vida daquela vez, e tem poupado até agora.

O que eu quero dizer com tudo isso? Que nós não sabemos o dia de amanhã. Nós não sabemos o que Deus tem guardado para o hoje. Não sabemos o que poderá acontecer até o final deste dia que estamos vivendo. Por isso, é fundamental que a gente coloque a mão na consciência e pense em tudo o que toca a nossa vida hoje. O que realmente vale a pena? O que verdadeiramente importa? Quem de fato faz diferença na sua vida? Será que as suas atitudes para com as outras pessoas condizem com o que você sente? E se você perdesse um ente querido nas próximas horas, estaria com a sua consciência tranquila?

Quando meu avião que deu problema no ano passado finalmente pousou, eu tive um momento sério de reflexão. Algumas horas mais tarde, eu mandei mensagem para todas as pessoas com quem eu me importava. Mandei uma mensagem para uma pessoa que eu havia tido um desentendimento pouco tempo antes (por algo muito pequeno), e pedi desculpas. Eu tive uma oportunidade de rever tantas coisas na minha vida depois daquele episódio.

Eu não recebi nenhuma mensagem de quem me tratou tão mal no dia que fui embora desta última vez. Não há nenhum sinal de arrependimento, de consideração, ou pelo menos de demonstrar que não queria que aquelas coisas todas tivessem acontecido. Isso é o que me deixa mais triste. O orgulho do ser humano é o pior dos venenos. Ele acaba com tantos relacionamentos, acaba com tantos sentimentos, acaba com laços de sangue.

Houve uma lição muito importante a ser tirada disso tudo. Os acidentes de percurso são mesmo inevitáveis. Mas eu acredito que, dada a oportunidade, todo o erro ao redor dos problemas deve ser reparado. Toda ação e reação desnecessárias que provém de um mal entendido, de uma briga ou de um desentendimento, devem ser consertados. Eu tento sempre agir desta forma quando sei que sou responsável por algo ruim que tenha acontecido. 

Então, neste fim de ano, e levando em conta todos os últimos acontecimentos no mundo, acho que agora pode ser um bom momento de se reconciliar com alguém que você sente falta, alguém que você gosta muito mas que por qualquer razão não tem mais contato, é hora de pedir desculpas pelas palavras ditas nos momentos de tensão, pela ausência, enfim, hora de repensar em tudo o que realmente importa nas nossas vidas e tentar fazer a diferença, tentar fazer a nossa parte.

Honestamente, eu não sei qual será o final dessa minha última história, mas peço a Deus que me ajude a superar o que aconteceu, e a perdoar, independente de qualquer coisa, e que a gente tenha a oportunidade de resolver tudo isso um dia. Por hora, é o tudo o que posso dizer.

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