Cinza


Toda essa coisa de viver longe das pessoas que amamos é mesmo muito complexa. Quem conhece essa realidade, seja de um lado ou do outro da moeda, mas principalmente sendo aquele que se “isolou” do mundo (como no meu caso), sabe que não é nada fácil. Não, este texto não tem o intuito de ser melancólico ou deprimente, mas será um pequeno desabafo sobre a solitária vida de quem parte.

Há quase dez anos eu saí do Brasil, e não tinha idéia do que aconteceria comigo daquele momento em diante, não mesmo, nem por dentro nem por fora. Eu acho que eu algum momento da minha ingênua cabeça de vinte anos eu achei que faria uma lipo e colocaria silicone, e que voltaria para o Brasil com corpo de Barbie (morena, provavelmente) e que todas as pessoas ficariam chocadas com o quanto eu mudara e com o mulherão que me tornara. Que ilusão mais estúpida. O que aconteceu foi bem o contrário – voltei para o Brasil loira e com uns quilinhos a mais. 

Mas este flash de ilusão do meu estado físico ainda foi alguns aros mais próximo do alvo comparado ao que eu imaginei que passaria psicologica e emocionalmente. Nesses dois pontos eu chutei longe. Quase um gol contra! Acho que é porque quando a gente é jovem assim, e pelo menos no meu caso, todo tipo de sofrimento que eu vivenciei foi superficial e passageiro. Não que eu não me importasse com as coisas, mas era mais fácil de ser otimista naquele ambiente que eu vivia, era como se a vida fosse um pula-pula daqueles infláveis, de quermesse, e que mesmo sabendo que cedo ou tarde eu levaria um tombo, não importa como caísse, a queda seria amortecida – pelos meus pais, pelos meus avós, pelos meus amigos, pelos namorados, pelo shopping, pelo trabalho… Eu era 100% feliz, mesmo com meus tombos, mesmo com os problemas comuns que qualquer pessoa poderia ter, era feliz, era completa, estava tudo bem, sempre, o tempo todo, mesmo quando não estava.

É, isso tudo parece uma loucura, e só faz sentido quando a vida vira de ponta-cabeça, e de repente você se vê tropeçando como antes, mas fora do pula-pula. De repente os mesmos arranhões doem muito mais, os mesmos tombos começam a virar pancadas, as quedas viram impactos inevitáveis, e você não consegue mais levantar tão depressa, nem esquecer aquelas feridas com tanta facilidade. A coisa funcionou mais ou menos assim comigo. Não logo de cara, mas com o tempo, e quanto mais eu me acostumava com a paisagem do lado de fora da janela do meu novo quarto, mais reais esses tombos pareciam. Quando você deixa de se distrair com o novo cenário, a realidade começa a invadir sua vida como uma onda impiedosa, lava tudo, e leva muita coisa.

É claro que eu aqui estou relatando apenas o lado meio-vazio do meu copo. Eu me mudei para os EUA em circunstâncias avessas às da maioria dos imigrantes que eu conheço, que vieram para cá por livre e espontânea vontade. Eu nunca tive esse sonho pessoalmente, nem nunca compartilhei desse sonho com ninguém. É diferente dos meus amigos e amigas que saíram do Brasil por pretenção, através dos seus próprios ideais, ou daqueles que vieram acompanhando seus esposos ou esposas, porque então isso já é uma missão completamente diferente. Eu não, comigo não foi uma coisa nem outra. Talvez por isso tenha sofrido mais, aproveitado menos, e até mesmo seja hoje em dia mais “sequelada”. Comigo foi como arrancar uma fruta verde do pé e esperar que estivesse doce o suficiente para ser devorada. Eu não estava pronta.

Por mais que alguns desses fantasmas adormeçam, e às vezes fiquem lá, ibernando por anos dentro do meu subconsciente, vez ou outra, por motivos de força maior, eles despertam. Eu é que tomo cuidado para não virar um pandemônio, para não abrir minha caixa de Pandora, porque isso eu mesma não mereço. Acho que aprendi a me controlar emocionalmente, talvez essa tenha sido a grande lição dessa última década, e bem que eu precisava aprender. Não acho que a minha vida seja hoje uma sequência de tombos, acho até que aprendi a viver sem o pula-pula. Mas as lembranças, meus queridos… Estas estarão sempre presentes na minha cabeça. As lembranças de um tempo em que nada me machucava. Disso eu sinto falta, e mais ainda por ter certeza de que jamais passarei por experiências desse tipo outra vez. Talvez seja culpa da vida adulta, talvez seja culpa da minha falta de fé nas pessoas, talvez seja porque o tempo me endureceu e eu simplesmente não consiga mais enxergar a vida como há dez anos. Talvez seja simplesmente uma mistura de tudo isso. Uma mistura do que eu era com o que eu deveria ser, um rascunho do que sou hoje, quem sabe, um esqueleto do que eu possa me tornar um dia. Viver longe assim é mesmo, com muita honestidade, uma quase desaventura. O lado meio-vazio do copo é um lugar cinza demais para se viver.

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