Dores de Quem Vive Fora

Uma das maiores dificuldades de ser um imigrante nos Estados Unidos é que as chegadas e partidas fazem parte da nossa rotina. Quando se deixa o país natal pela primeira vez, e por mais que a vida até aquele momento tenha sido resumida em uma única cidade, muitas vezes em um único bairro, e até mesmo em uma única casa, as pessoas conhecem a facilidade que é a vida nômade. Ou seja, uma vez cortada a raíz, é fácil demais de se desprender, ir e vir de e para qualquer outro lugar.

Acontece que sempre tem um o outro que consegue – por opção ou por necessidade – criar uma nova raíz. Vira uma “muda” estrangeira, que chega e quer criar vínculos, que sabe que não conseguiria, talvez por razões psicológicas, encarar outra mudança (ainda que menos brusca). Este é, inquestionavelmente, o meu caso.

São quase dez anos vivendo em Iowa, e chega a ser surreal pensar nesse número. Em todos estes anos, houve momentos em que eu achei que jamais conseguiria aguentar o fluxo de pessoas que vem e vão todos os anos. Desde o meu primeiro ano aqui consigo pensar em pelo menos um amigo ou amiga que por motivos diversos simplesmente “foi embora”.

Depois de dois anos seguidos sofrendo com despedidas (três anos, se contarmos a minha própria despedida do Brasil) eu entrei em um novo ciclo – o ano sim, ano não. Foi sem querer, mas aconteceu. Todos os anos vinham estudantes internacionais para o meu College, e sempre havia brasileiros na turma. Eu não consegui ficar próxima de todos eles na mesma intensidade. No primeiro ano, fiquei tão grudada neles que quando foram embora foi como reviver a minha própria partida do Brasil. No segundo ano, chegou a turma nova, e eu quase não os via. Gostava de todos eles, mas não conseguia. Sabia que era uma convivência temporária, e simplesmente não consegui me aproximar. Quis evitar a dor que viria meses depois.

No ano seguinte não houve brasileiros, e aquele foi um ano um pouco mais solitário. Eu fiz amizade com pessoas de outros países sim, e sempre amei poder fazer isso, mas não adianta, são os conterrâneos que nos fazem sentir mais vivos. É assim comigo quando se trata de amizade. No próximo ano chegaram mais dois brasileiros, um deles que é um dos nossos melhores amigos até hoje. Quando o Josh e eu falamos sobre aquela época, que foi logo quando nos conhecemos, às vezes chegamos a nos emocionar. A partida do nosso amigo foi difícil para nós dois, e diria que pior ainda para o Josh que nunca havia passado por isso na vida antes.

Depois, houve um momento de marasmo onde tudo estava contínuo demais. Eu passei por uma grande decepção, e decidi que poucas pessoas no mundo realmente valiam a pena. Foi um golpe duro na época, e uma decepção tão grotesca que eu achei que os relacionamentos da vida adulta eram todos uma grande farça. Tirei meu time de campo, me isolei, e decidi que não dava para confiar em mais ninguém. 

E foi então que Deus fez, mais uma vez, a sua obra. Foi colocando algumas pessoas no meu caminho que, hoje sei, são muito especiais. Não posso escrever muito a respeito disso ainda porque me emociono e também porque fico triste pois algumas delas acabaram de voltar para casa e vão seguir seus caminhos longe daqui (pelo menos por hora). 

Depois de todos esses anos e de todas as experiências, boas ou ruins, a minha conclusão é de que a gente não pode se esconder das experiências que a vida nos traz. Fugir não adianta nada, apenas adia as lições que temos que aprender – e iremos – de um jeito ou de outro. Aprendi que vale muito mais a pena conhecer as pessoas e dar chances do que fingir que elas não estão lá. As verdadeiras amizades resistem ao tempo e à distância, mesmo quando tudo parece acabado com um adeus dolorido. 

Estou passando por um momento muito feliz e muito triste ao mesmo tempo – esta fase ainda não passou, como contei no outro post há uns dias. Esse conflito de sentimentos me deixa um pouco atordoada – consigo lidar melhor só com a tristeza do que com a tristeza mesclada com alegria – como se essa fusão fosse injusta ou egoísta. De todas as formas, é uma fase. Logo ela passa. O que importa é que vivo, aprendo, compartilho e sigo a diante. 

Obrigada por me ouvir. Estava precisando mesmo falar sobre isso.

G.

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