Boomerangs

Se tem uma coisa que eu demoro a fazer na vida é “desencanar”. Se eu conseguisse desencanar das coisas com a mesma facilidade que eu encano minha vida seria um quase mar de rosas. Mas veja bem, não é que eu não saiba como desencanar. O problema é cronológico.

Tempo.

Eu sou o tipo de pessoa que fica remoendo, não no sentido rancoroso da coisa, mas no sentido culposo dela. Fico repassando diálogos na minha mente, pensando em diferentes cenários, no que eu poderia ter dito e não disse, no que fiz e poderia ter não feito, fico querendo ler as pessoas, entender o porquê delas serem como são, e o pior de tudo, o porquê de não me entenderem como deveriam. “É tão simples”, eu penso.

Não é.

É que eu convivo comigo mesma há trinta anos, então tenho uma certa facilidade do que esperar de mim, e ainda assim me pego em discussões internas dizendo “Sério, Gisele? De verdade mesmo?!”. Como posso esperar o mínimo que seja de pessoas que mal me conhecem? Ou que me conheceram há poucos anos? 

Que seja.

O fato é que quase sempre fico dando chance ao acaso, jogando o boomerang esperando que consiga fazê-lo com tal perfeição que ele volte direto à minha mão, e fim de conversa. Mas dificilmente isso acontece. Eu sempre acabo fazendo o arremesso de mal jeito, e ao invés de pensar “ah, dane-se, quando der vontade eu vou lá e cato ele, vejo onde ele caiu…”, fico observando já tendo a certeza de que ele aterrissará distante de mim e quando me dou conta já estou correndo atrás dele, com medo que ele quebre no chão, se espatife, ou que simplesmente fuja de mim.

Control freak.

Mas tudo bem. Eu faço isso uma, duas, dez, cem vezes, às vezes, se estou muito apegada ao boomerang. É que tem uns boomerangs que parecem ser mais legais que os outros. Só que na verdade não. Na verdade eles podem até ser mesmo diferentes e uns mais de valor do que os outros, mas o erro é meu, que me apego. Sempre acho que aprendi, mas no fim vejo que não aprendi.

Beleza.

Só que o problema está na hora que eu resolvo que aquele boomerang não presta mais. Não, não é que “não presta”, mas que não serve mais pra mim, ou que simplesmente não merece tooooooooda a minha atenção e tooooooooooda a minha devoção e toooooooooooooooooooodo o apego que tenho por ele. Eu demoro a decidir, mas quando decido…

Já era. 

Deixei pra lá, abri uma página em branco, escrevi uma meia-dúzia de palavras a respeito disso, e deixei virar pó. Não posso ficar me incomodando com as coisas assim pro resto da vida, posso? Não. Não dá pra ficar remoendo e pensando que as coisas deveriam ser diferentes só porque eu me importo com elas, dá? Não. E não quero passar a vida insistindo em boomerangs que não querem voltar, quero? Não.

Desencanei.

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