Traumas de Adolescência – Coisas Que Ficaram Para Trás

Há poucos minutos tive um insight. Na verdade foi uma sensação diferente, como se por uma fração de segundos eu tivesse conseguido transportar a minha mente de volta ao passado, mas no meu corpo presente. Faz sentido isso? Provavelmente não. Mas tudo bem, vou tentar explicar.

Sabe quando tudo ao seu redor fica em segundo plano? Parece que estamos usando aqueles óculos 3D de cinema, e você se enxerga, mas não tem a noção de que está alí, presente naquele momento? Foi mais ou menos isso, um lapso de tempo, onde por poucos segundos eu me senti expectadora da minha vida – só que eu não era o eu de hoje, e sim o eu de quinze anos atrás.

Não acho que vou conseguir fazer mais sentido que isso, portanto deixo desde já o meu pedido público de desculpas pela falta de articulação com as palavras. Mas o fato é que este momento realmente me trouxe um insight um pouco interessante.

Eu consegui me recordar de alguns sentimentos que eu tinha a respeito da minha própria pessoa. Muito doido isso, mas muito fundamental também – me ajudou a pensar. Tudo o que nos ajuda a pensar, é bom. Do contrário, é apenas mais do mesmo, não agrega nada novo. 

Por algum motivo abstrato, coisas específicas a respeito da minha auto-imagem vieram totalmente à tona. Para qualquer adolescente, não há nada mais importante no mundo do que a sua própria imagem. Neste ponto, eu fui igual a todo mundo. Eu me lembro bem de momentos em que minhas inseguranças (os defeitos que eu já via em mim) tornaram-se “traumas” de adolescência. Todas as vezes, foram agravados graças a comentários maldosos que as coleguinhas faziam questão de tecer.

A sobrancelha. Acho que foi o primeiro deles. Uma vez uma amiga decidiu desenhar minhas sobrancelhas com lápis no tampo da carteira. Não me lembro do motivo, mas lembro de não ter ficado feliz com o desenho, muito menos com as gargalhadas que ele rendeu. 

Os pelos nos braços. Este era um problema um grau menor que as sobrancelhas, mas existia. Eram muitos comentários maldosos, principalmente vindos dos meninos. O que ajudou a amenizar foi 1) descobrir os pós descolorantes e a água oxigenada e 2) perceber que eu não era a única com este pavoroso problema. A menina mais bonita da escola também era assim.

As unhas. Eu roía minhas unhas. Era uma pré-adolescente estressada e nervosa por conta do ambiente escolar que eu cresci. As pessoas na escola nunca comentaram a respeito disso, mas meu pai me chamou a atenção tantas vezes por roe-las que quanto mais eu tentava parar, mais impossível aquilo parecia. Lembro de uma conversa “singela” à mesa da cozinha em que minha mãe disse que já não adiantava mais me falar para deixar de roer as unhas, que ela deveria ter feito o mesmo que uma tia fez com um primo, que na primeira vez que foi pego roendo uma unha tomou um sopapo daqueles de fazer esquecer o próprio nome, e que graças a isso nunca mais havia colocado as mãos na boca. Fico imaginando se essa terapia realmente teria funcionado comigo, mas duvido muito.

O cabelo. Até hoje minha mãe brinca, rindo muito, de quando eu tinha meus 12 ou 13 anos, com o cabelo bem longo, e muito, mas muito, cheio. Eu sempre tive muito cabelo, tanto que precisava de ambas as mãos para fechar um rabo de cavalo tamanho era o volume. E ela ri porque na época me chamava de Maria Betânia. Meu cabelo era ondulado e armava. 

As estrias. Esse trauma veio mais tarde, com uns 17 anos. Naquela época, começo dos anos 2000, as calças eram muito baixas e eu me sentia mal por causa das estrias nas laterais do meu corpo. Eu não era gorda, pelo contrário, mas minha pele nunca foi das mais resistentes. As primeiras estrias apareceram muito cedo. Por sorte, não pioraram muito, mas foram suficientes para aterrorizar minha juventude. Eu morria de vergonha e fazia de tudo para escondê-las. Ficava pensando que jamais conseguiria um marido que me quizesse por causa daquelas malditas…

Bom. Eu senti tudo aquilo outra vez, como um flash, agora a pouco. Quando voltei ao normal, a Gisele de 30 anos, respirei aliviada. Então pensei, por quê estou aliviada? A sobrancelha, os pelos dos braços, as estrias, o cabelo (que hoje, acho que depois de muita oração, diminuiu 2/3 de volume) e as unhas (que parei de roer assim que mudei de escola) continuam aqui.

Mesmo diferente, meu corpo segue sendo o meu corpo, com os mesmos problemas, se não piores! Mas eu simplesmente… Não me importo mais. Como foi que isso aconteceu? Como eu consegui me livrar destes traumas assim, sem nem tentar? Não é que eu ame minhas estrias, mas elas não fazem diferença nenhuma na minha vida. Minhas sobrancelhas ainda dão trabalho. Meu cabelo consome tempo. Minhas unhas quebram. E por incrível que pareça, ainda esses dias ouvi um comentário maldoso a respeito dos pelos dos meus braços no trabalho (o ser humano é mesmo terrível, não importa a idade). Como foi que eu me livrei de todos estes complexos?

Então lembrei de uma mentalidade que desenvolvi involuntariamente. Todas as vezes que eu me senti feia, dizia a mim mesma “a beleza vai, a inteligência fica”. Comecei a valorizar, ainda nova, minhas habilidades intelectuais, minha capacidade de comunicação, meu senso de humor, e deixei de focar, pouco a pouco, na minha aparência física. É claro que isso aconteceu com o passar dos anos, mas hoje, adulta, tenho a sensação de total liberdade. Meus “defeitos” não são defeitos, são apenas características. Minha percepção de quem eu realmente sou, como pessoa, não como corpo, foi melhorada e aprimorada com o passar do tempo. Hoje, por mais que eu reclame do tamanho do meu nariz, não conseguiria nem imaginar a possibilidade de fazer uma plástica. E não é que eu seja contra o procedimento, simplesmente prefiro focar em outras coisas além do meu nariz. 

Existe um espírito por trás deste nariz, dessa barriga, desses ombrões. E dane-se o resto, entende? Se eu cuido do meu corpo hoje, é porque sei que dentro de um limite, eu posso melhorar, cuidar da minha saúde. Perder peso não significia que eu odeio meu corpo como ele é. Pelo contrário! Mas existem uns complexos que precisam mesmo desaparecer. Eu devo ter uns complexos de adulta (tipo esses que eu mencionei no início desta frase), mas daqui uns anos pretendo esquecer deles. Pelo menos não chegaram a virar um trauma. Quem sabe os ombrões não existam por algum motivo? Para que eu seja uma velhinha forte e bem estruturada, sem corcunda… Não importa.

Este post ficou meio louco, mas eu precisava registrar esse insight aqui. Sei que daqui uns anos vou voltar a ler tudo o que escrevi e pensar “Ufa…” outra vez. 

É isso.

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2 comentários sobre “Traumas de Adolescência – Coisas Que Ficaram Para Trás

  1. Só tenho uma coisa a dizer: suas sobrancelhas são lindas! Podem até dar trabalho, como vc disse, mas são lindas. Vc aprendeu a cuidar delas, assim como aprendeu a cuidar do seu cabelo e que roupa usar pra disfarçar o que vc nao gosta. Talvez a nossa caracteristica mais bonita seja a que deu mais trabalho e a que lutamos para que esteja como está hoje. No seu caso, a sobrancelha, no meu caso, o cabelo. Hj recebo muitos elogios por causa dele, mas só eu sei o trabalho que dá. E sempre vai ter alguém pra criticar. Hj mesmo criticaram os meus cabelos brancos (hj tenho 27, mas eles me acompanham desde os 18). Eu poderia pintar, uma solução muito sipmles, Mas prefiro ser quem eu sou e isso nao me incomoda tanto. Já os pelos no meu braço… Rsrsrss. Bj grande. Adorando essa nova fase.

    Curtido por 1 pessoa

    • Fe, que mensagem linda! Você tem toda a razão. As nossas características mais marcantes são mesmo as que nos dão trabalho, mas são o que nos diferenciam dos demais e nos tornam pessoas únicas. Muito obrigada pelo comentário! Você é linda! Beijos, Gi.

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